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“Guerra e sangue”

Flamínio Araripe é jornalista

Com o título “Guerra e sangue”, eis artigo do jornalista Flamínio Araripe. Ele aborda o conflito entre Israel e o Hamas.

Não há guerra que não seja suja, que não seja um desgaste de energia, prejuízo econômico, que não seja um caos e que, finalmente, não traga muita tristeza e sofrimento para todo mundo. Sempre é assim.
Viggo Mortensen

Livro de 1986 previu reação violenta de Israel ao ataque do Hamas

Confira

Publicado em 1986, o romance “O avesso da vida” (Companhia das Letras), de Philip Roth, autor norte-americano e judeu, aponta de forma premonitória o clima de tensão que explodiu na terceira guerra de Israel contra árabes e palestinos. O conflito foi deflagrado em 7 de outubro de 2023, quando militantes do Hamas invadiram o país nas proximidades da fronteira com a Faixa de Gaza, no feriado judaico de Simchat Torah.

O escritor mostra as tensões nos territórios ocupados por Israel. Depois de duas guerras vencidas – o país deflagrou a terceira -, o antagonismo dos judeus é manifestado em dois pólos. O intelectual pacifista debate com ideias na imprensa de Tel Aviv a questão das fronteiras.

Já o líder dos colonos nos territórios ocupados da Cisjordânia, radical, prefere a ação das armas, da força, a política da imposição do poder. Torce para que mexam com alguém da sua milícia, basta um tapa, uma pedra lançada, para retaliar com bala e aniquilação.

O ataque do Hamas fortaleceu o polo pró violência, junto com o primeiro-ministro Benjamin Natanhyahu, que balançava no poder com denúncias de corrupção e manobras para tolher o estado democrático e anular o Judiciário. Israel, potência bélica. Um estado de guerra eclodiu em plena força.

Dois dias após o ataque terrorista a Israel, o ministro da Defesa, Yoav Gallant, disse ter “ordenado um cerco completo à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Está tudo fechado, estamos lutando contra animais humanos e agindo de acordo”.

Os estrategistas do Hamas conseguiram de imediato atrapalhar a negociação de paz em andamento no Oriente Médio, articulada pelos EUA e Arábia Saudita. Mas será que calcularam o tamanho da retaliação a seu próprio povo, que tem custado cerca de 40 mil vidas, 30% crianças inocentes?

A desproporção dos bombardeios das Forças Armadas de Israel reeditou a luta dos estudantes de universidades nos EUA contra a guerra do Vietnã. O movimento contra a matança em Gaza chegou à Europa. Três paises europeus Espanha, Irlanda e Noruega reconheceram o estado palestino. O Brasil retirou o embaixador de Tel Aviv.

A Corte Internacional de Justiça (CIJ) da ONU determinou para Israel cessar operações militares em Rafah e permitir a entrada de ajuda humanitária. O país não interrompeu os bombardeios. A criação de Israel teve como embrião do estado judeu a Rosolução de Partilha da ONU, de 1947, que dividiu em dois o território palestino. A independência veio em maio de 1948, no mesmo mês em que Israel ignora, já em 2024, determinação da CIJ para que adote medidas imediatas e efetivas para evitar o genocídio contra palestinos em Gaza.

No livro, um personagem quase premonitório desenha o perfil do líder extremista que deseja o agravamento nas tensões para impor a solução bélica aos países vizinhos e palestinos do território ocupado. Parece uma caricatura do atual ministro da Defesa e do primeiro ministro de Israel, que exultam diante da oportunidade de investir para aniquilar as forças do Hamas e aliados, sem considerar as baixas na população civil.

Um dado do romance: Os EUA, à época, financiavam a indústria armamentista com U$ 3 bilhões anuais para sustento de Israel. Muito mais dólares despejam agora para bancar a indústria da matança e sangue. Financiam a guerra com uma mão; com a outra criticam os excessos, como o recente bombardeio a refúgio da ONU em Gaza que ceifou 45 vidas.

No livro, a situação do judeu no mundo atual e na história, nos EUA e Inglaterra, alimenta uma trama cheia de reviravoltas. Há uma permanente polarização entre a frágil inocência do judeu norte-americano para com o conflito racial, que não sente na pele em seu país e a eclosão do preconceito. A dor culmina com a revolta contra a discriminação que resgata o passado das perseguições e mortes na Europa do Leste, Península Ibérica e o Holocausto nazista.

Um dentista especializado em implantes e o seu irmão escritor, judeus de Jersey e Nova York, são personagens condutores da trama. Uma história do livro do irmão escritor é recontada pelo irmão dentista, que a desmente. Episódios de outro livro enriquecem o drama. Fatos ressurgem com o oposto da narrativa inicial.

Em paralelo ao cenário histórico, flui uma teia de adultérios, misoginia, dissolução da família, fuga e enfrentamento. A mulher retratada em personagens marcantes é presença crítica, ora passiva, ora consciência manifesta da repulsa em conviver com fanatismo religioso ou racial.

****
“O avesso da vida” é um dos poucos livros que li duas vezes. Reli também “Cem anos de Solidão” e “Viver para contar”, ambos de Gabriel Garcia Marquez; “A sangue frio”, de Truman Capote e “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski.

*Flamínio Araripe,

Jornalista.

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