“8 de Março: entre o mercado, a militância e a verdadeira dignidade da mulher” – Por Sabino Henrique

Sabino Henrique é jornalista, advogado e editor do site direitoce.com.br

Com o título “8 de Março: entre o mercado, a militância e a verdadeira dignidade da mulher”, eis artigo de Sabino Henrique, jornalista e advogado. “Há uma contradição evidente em certos segmentos do feminismo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que proclamam a força da mulher, insistem em tratá-la como ser eternamente vulnerável, dependente de tutela estatal, de cotas morais e de uma guerra cultural sem fim contra os homens”

Confira:

Todo ano, o dia 8 de março retorna cercado de flores, promoções, campanhas publicitárias, discursos emocionados e palavras de ordem. O chamado Dia da Mulher, que deveria ser uma ocasião de reflexão serena sobre a condição feminina, acabou transformado, em larga medida, num espaço disputado por dois interesses muito claros: o do comércio, que se vale da data para ampliar vendas e lucros, e o de setores do movimento feminista, que a utilizam para repetir palavras de ordem, reafirmar bandeiras ideológicas e tentar ampliar sua influência política e cultural.

De um lado, está o mercado, sempre pragmático. Empresários, lojistas, marcas de cosméticos, roupas, joias, restaurantes e tantos outros segmentos sabem como ninguém converter emoção em consumo. Criam campanhas bonitas, embalagens delicadas, mensagens de exaltação à mulher, e o resultado quase sempre aparece no caixa. É a lógica capitalista funcionando com eficiência: identifica-se uma data simbólica, explora-se seu apelo sentimental e colhem-se os frutos comerciais.

De outro lado, surgem grupos feministas que, há décadas, tentam monopolizar o sentido do 8 de março. Nem sempre conseguem. E, muitas vezes, fracassam por culpa de si mesmos. Fracassam pelo excesso de chavões, pela insistência em discursos repetitivos, pela tentativa de transformar toda diferença entre homem e mulher em opressão, e pela incapacidade de reconhecer que boa parte das mulheres reais — aquelas que trabalham, cuidam da família, estudam, empreendem, lideram, sofrem, vencem e seguem em frente — não se vê representada por um discurso permanentemente ressentido.

Há uma contradição evidente em certos segmentos do feminismo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que proclamam a força da mulher, insistem em tratá-la como ser eternamente vulnerável, dependente de tutela estatal, de cotas morais e de uma guerra cultural sem fim contra os homens. Em vez de afirmarem a competência feminina como valor em si, preferem muitas vezes estimular a disputa, o confronto e a ideia de que o avanço da mulher depende do recuo do homem.

Esse caminho é equivocado.

A mulher não precisa ser diminuída para ser defendida, nem o homem precisa ser demonizado para que ela seja valorizada. A mulher tem brilho próprio, inteligência própria, sensibilidade própria, competência própria. Conquistou e continua conquistando espaços por talento, esforço, preparo, coragem e mérito. E é justamente aí que reside sua grandeza.

A história está cheia de exemplos de mulheres que se impuseram pelo estudo, pela capacidade de liderança, pela firmeza moral, pela criatividade e pela resistência. Não precisaram negar sua feminilidade, nem copiar comportamentos masculinos, nem aderir a discursos de revanche. Ocuparam seu lugar porque tinham condições de ocupá-lo. E, quando não o tinham ainda, lutaram para construí-lo com trabalho, disciplina e perseverança.

É preciso dizer com clareza algo que hoje parece quase proibido: homem é homem, mulher é mulher. São diferentes, e essa diferença não implica inferioridade nem superioridade. Implica natureza, identidade, modo de ser, modo de sentir e modo de atuar no mundo. A civilização sempre avançou melhor quando soube harmonizar essas diferenças, e não quando tentou apagá-las por decreto ideológico.

O verdadeiro respeito à mulher não está na retórica vazia das campanhas oportunistas nem nas palavras de ordem agressivas de militâncias que vivem do conflito. Está no reconhecimento concreto de sua dignidade, de sua liberdade, de sua inteligência e de sua contribuição insubstituível para a família, o trabalho, a cultura, a política e a sociedade.

O 8 de março deveria servir menos para slogans e mais para reflexão. Menos para exploração comercial e menos para militância automática. Deveria ser uma data para homenagear a mulher real: a mãe, a avó, a filha, a profissional, a professora, a médica, a advogada, a empreendedora, a operária, a cuidadora, a artista, a servidora, a estudante. A mulher concreta, não a caricatura ideológica.

Talvez o maior erro de nosso tempo seja transformar tudo em palco de disputa. A mulher não precisa disso. Precisa de respeito verdadeiro, oportunidades reais, segurança, reconhecimento e paz. Precisa ser vista como pessoa inteira, e não como instrumento de marketing ou massa de manobra ideológica.

Neste 8 de março, mais do que repetir frases prontas, convém lembrar o essencial: valorizar a mulher não é usá-la. É respeitá-la. É reconhecê-la. É compreender que sua força não nasce do ressentimento, mas da grandeza silenciosa e firme com que, todos os dias, ajuda a sustentar o mundo.

*Sabino Henrique

Advogado e jornalista.

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