“A extrema-direita europeia e o paradoxo do “America First” – Por Luiz Henrique Campos

Trump entre ameaças a blefes. Foto: Reprodução

Com o título “A extrema-direita europeia e o paradoxo do “America First”, eis o título da coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos, após boas férias. “O resultado é um cenário de maior instabilidade, no qual alianças se tornam frágeis, a democracia liberal é corroída por dentro e o sistema internacional se torna mais imprevisível”, expõe o colunista.

Confira:

O avanço da extrema direita na Europa revela dinâmicas distintas entre Europa Ocidental e Oriental, ainda que conectadas por uma mesma gramática política, que são o nacionalismo, rejeição ao liberalismo cultural e contestação das elites tradicionais.

Na Europa Ocidental, o fenômeno surge sobretudo como reação a fluxos migratórios, à globalização econômica e ao esgotamento do Estado de bem-estar social. Já na Europa Oriental, ele está mais ligado a processos históricos incompletos de consolidação democrática, ao ressentimento pós-socialista e à defesa de uma soberania nacional entendida como barreira contra interferências externas, especialmente da União Europeia.

Essa diferença explica por que, no Ocidente, a extrema direita frequentemente opera dentro das regras institucionais, tensionando-as, enquanto no Leste ela tende a remodelar o próprio Estado, enfraquecendo freios e contrapesos. Em ambos os casos, porém, o resultado é a fragmentação política e o enfraquecimento da coesão europeia a partir da negação do multilateralismo.

O fenômeno guarda paralelos claros com os Estados Unidos e a América Latina. Nos EUA, o trumpismo combinou populismo, nacionalismo econômico e retórica antiglobalista, inspirando movimentos europeus semelhantes. Na América Latina, experiências recentes de direita radical também exploraram crises econômicas, medo da desordem social e descrédito das instituições, embora em contextos marcados por desigualdade estrutural e democracias mais jovens.

A contradição central emerge quando Donald Trump, símbolo global dessa visão de mundo, entra em conflito com seus admiradores europeus. Enquanto eles defendem nacionalismos fragmentados e maior autonomia frente a Washington, Trump prioriza a lógica de poder hierárquica e transacional, na qual a Europa deve subordinar-se aos interesses estratégicos e econômicos dos EUA.

Assim, o “soberanismo” europeu colide com o “America First”, revelando que a extrema direita, apesar do discurso comum, é incapaz de construir projeto internacional coerente. Esse choque expõe o paradoxo do movimento, pois ao mesmo tempo que rejeita o multilateralismo liberal, não consegue substituí-lo por uma ordem alternativa estável.

O resultado é um cenário de maior instabilidade, no qual alianças se tornam frágeis, a democracia liberal é corroída por dentro e o sistema internacional se torna mais imprevisível. Geopoliticamente, esse quadro de coesão fragilizada, reduz a capacidade de ação externa e coloca em risco o modelo liberal-democrático que sustentou a estabilidade do continente no pós-guerra com reflexos em todas as demais zonas do planeta.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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