Com o título “Inovação em saúde em Davos 2026: a promessa da abundância e o preço da realidade”, eis artigo de Ernando Sousa Filho, medico e escritor. “Se a IA entra para padronizar, otimizar e liberar tempo do clínico para o que é humano, ela melhora o sistema. Se entra para cortar gente e empurrar risco para a ponta, ela cria um sistema mais frágil e mais desigual, mesmo com dashboards bonitos”, expõe o articulista.
Confira:
Saúde ficou cara, lenta e desigual. E a pergunta que atravessou Davos 2026 foi direta: a IA vai reduzir esse atrito ou só vai sofisticar o privilégio?
De 19 a 23 de janeiro, último o Fórum Econômico Mundial colocou saúde no centro do debate sobre infraestrutura tecnológica. Não como tendência. Como base de soberania. Porque, quando a interface do cuidado muda, muda também quem captura confiança, dados e decisão.
O ponto que vale levar para a prática é simples: Davos não foi sobre gadgets. Foi sobre escala.
O estado atual: transição acelerada e um sistema que não acompanha
O mundo entrou numa fase em que IA e dados prometem ganho brutal de produtividade clínica, mas os sistemas seguem presos a três forças:
1. Envelhecimento e cronicidade pressionando demanda e custo.
2. Fragmentação do cuidado criando desperdício e baixa coordenação.
3. Desigualdade persistente limitando acesso e qualidade, mesmo com tecnologia disponível.
A sensação em Davos foi de “pós pandemia com turbo”, mas com uma contradição incômoda: quanto mais tecnologia, mais evidente fica que o gargalo é execução.
A virada de chave: o futuro não é só mais tecnologia, é outra arquitetura do cuidado
Dois símbolos resumem o evento.
Jensen Huang, da NVIDIA, tratou IA como infraestrutura em construção, não como bolha. A mensagem implícita é simples: quem dominar capacidade computacional e aplicação clínica vai definir padrões.
Elon Musk empurrou a narrativa de abundância via robótica e IA, com previsões agressivas sobre automatização na saúde e longevidade. Você pode discordar do prazo. Mas o vetor é real: o cuidado está migrando para modelos mais digitais, mais contínuos e mais escaláveis.
E isso muda o jogo para qualquer médico, clínica, hospital, plano e governo.
O que mais parece “mundo real”: IA aplicada na atenção primária
Entre falas e painéis, o que mais teve cara de implantação foi a parceria Gates Foundation e OpenAI: US$ 50 milhões para o projeto Horizon1000, mirando apoio a atenção primária e expansão para 1.000 clínicas em países africanos até 2028, começando por Ruanda.
Essa escolha é estratégica. A maior chance de escala não está no hospital como vitrine. Está no básico que trava o sistema:
triagem, registro, orientação, seguimento, prevenção e coordenação.
Pouco glamour. Muito impacto.
A nova interface do cuidado: o consumidor no centro
Quando uma empresa lança um produto como “ChatGPT Health”, ela está dizendo algo maior do que um recurso novo. Está dizendo: a conversa do paciente vai morar aqui.
Isso amplia acesso, mas também aumenta o risco de:
privacidade, viés, governança, confiança e confusão sobre o que é orientação versus ato médico.
A competição respondeu rápido, com iniciativas semelhantes e promessas de ambiente “pronto para compliance”. Traduzindo: a disputa não é apenas por modelo de IA. É por canal e por integração com o mundo real.
O dilema que Davos não resolve: automação versus dignidade do trabalho em saúde
A mesma tecnologia que reduz custo e atrito pode destruir valor se for usada apenas como substituição cega.
Em saúde, a “escala” não é só técnica. É vínculo, julgamento, responsabilidade, coordenação e contexto.
Se a IA entra para padronizar, otimizar e liberar tempo do clínico para o que é humano, ela melhora o sistema. Se entra para cortar gente e empurrar risco para a ponta, ela cria um sistema mais frágil e mais desigual, mesmo com dashboards bonitos.
A tese prática de Davos 2026
Inovação em saúde virou problema de sistema. E sistema tem quatro alavancas:
1. Infraestrutura: computação e energia para rodar IA em escala.
2. Dados: interoperabilidade, qualidade, redução de viés, segurança e consentimento.
3. Fluxo clínico: sair do piloto eterno e virar rotina, com métricas claras.
4. Governança e equidade: garantir que produtividade vire acesso, não apenas margem.
A pergunta útil para quem está na linha de frente não é “qual IA usar?”.
É esta:
Qual pedaço do cuidado eu consigo transformar em fluxo previsível, mensurável e seguro, sem perder humanidade?
Se você responde isso com clareza, você sai de Davos com uma vantagem real. Porque a próxima década não vai premiar a ideia mais bonita. Vai premiar quem consegue implementar com responsabilidade.
*Ernando Sousa Filho
Médico e escritor.