“Juros podem cair já nesta semana, segundo pesos pesados do mercado” – Por Leopoldo Vieira

Leopoldo Vieira é jornalista

“Um início conservador da trajetória baixista permitiria acolher o ‘risco Flávio’ sem desconsiderar indicadores”, aponta o jornalista Leopoldo Vieira

Confira:

Nesta semana pode começar o ciclo baixista dos juros brasileiros, reforçando o otimismo econômico na população favorável à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo pesos-pesados do mercado financeiro como Bank of America (BofA), BTG Pactual, Bradesco e BGC Liquidez, os cortes ficarão entre 0,25 p.p. e 0,50 p.p. Outros gigantes, como XP Investimentos e Itaú, projetam que a Selic só cairá em março. No Polymarket, plataforma de mercados preditivos, 90% investem na manutenção da taxa básica em 15%, enquanto 9% precificam queda.

O PROBLEMA DA DÍVIDA – Em artigo no Poder360, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha avalia que o nível dos juros “provocou diversos problemas, dentre eles o estouro da dívida pública”. Conforme ele, “15% ao ano sobre uma dívida desse tamanho provoca uma despesa que consome quase a metade da arrecadação federal”.

Como registrado na história, Cunha é o pai do orçamento impositivo. Para este ano, as emendas parlamentares somam cerca de R$ 60 bilhões, sendo aproximadamente R$ 38 bilhões na modalidade de execução obrigatória, de acordo com Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos. Para outros especialistas, sem ao menos metade desse montante destinado aos congressistas, o país estaria operando em superávit.

O QUE TEMOS DITO SOBRE A SELIC

– O atual patamar de 15% pode ser interpretado como uma estratégia bem-sucedida da autoridade monetária para valorizar o real frente ao dólar e conter a inflação, sobretudo a de alimentos. Esse movimento contribuiu para a estabilização da popularidade do presidente, em um contexto de pleno emprego, aumento da renda e resiliência do setor de serviços. Esses fatores, sem dominância fiscal, reduziram os efeitos do “remédio amargo” sobre a atividade econômica.

– O diferencial de juros em relação aos Estados Unidos e a outras economias permanece elevado, abrindo espaço para a queda das taxas sem impacto relevante sobre os fluxos de carry trade, vetor-chave do rali em curso na B3.

– Não é apenas o efeito econômico direto da redução da Selic, sobre a atividade ou o crédito, que tende a favorecer a reeleição de Lula, mas também o “clima” de juros em queda. Assim, independentemente do momento de início do ciclo, é improvável que o presidente não seja beneficiado pela redução da Selic, cujo efeito político parece já ter sido endereçado.

A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre na quarta-feira, no mesmo dia em que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, tende a manter a taxa de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%, de acordo com economistas de Wall Street. O Fed defenderá sua autonomia perante o governo Donald Trump. Caso mantenha o patamar atual, ignorará intimidações judiciais vindas de Washington para o início imediato dos cortes. O aumento do risco doméstico e geopolítico associado a Trump tem direcionado investimentos estrangeiros para a bolsa brasileira, alimentando o que bem poderia ser chamado de “rali Galípolo”.

A HORA DO BANCO MASTER – Na antessala de uma semana marcada por depoimentos relacionados às fraudes do banco Master, de Daniel Vorcaro, Lula reafirmou seu posicionamento antissistema, em meio à antecipação da disputa pelo Palácio do Planalto. “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de 40 bilhões de reais. E quem vai pagar? Os bancos, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o Itaú. Um cidadão que deu um desfalque de 40 bilhões. E tem gente que defende, porque também está cheio de gente que falta um pouco de vergonha na cara neste país”, afirmou o petista durante a entrega de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida no Nordeste.

Ainda em dezembro, Lula assegurou que determinará a apuração rigorosa de eventuais irregularidades que possam resvalar em sua gestão, deixando claro que ninguém será poupado. “Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado”, disse à época, ao comentar fraudes no INSS. Em paralelo, a ofensiva da Polícia Federal (PF) contra o Master teve como um dos alvos o maior doador pessoa física das campanhas do governador Tarcísio de Freitas ao Palácio dos Bandeirantes e de Jair Bolsonaro ao Planalto, o que mantém aceso o alerta de empresários como Lawrence Pih sobre os riscos embutidos nos possíveis vínculos da instituição liquidada com o Centrão, a direita tradicional e a ultradireita. O problema, conforme alguns analistas, é se o mercado local precificar uma crise neste campo como desfavorável a seus interesses.

2026 E MERCADO – No plano eleitoral interno, seguem no radar as articulações da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e seus aliados no establishment político e econômico para emplacar Bolsonaro inelegível, mas em prisão domiciliar. O objetivo, dizem aliados, é reorganizar o campo da direita e do centro em torno da candidatura presidencial de Tarcísio, que deve visitar o ex-presidente na quinta-feira. No entanto, as apostas são de que Tarcísio ouvirá um comando enfático de engajamento na campanha do senador Flavio Bolsonaro.

Para traders mais experientes, a alta recente do Ibovespa é vista como “100% macro externo”, descartando que a disputa eleitoral de 2026 esteja precificada nos ativos. Para megainvestidores como Luís Stuhlberger, o “gringo” minimiza os riscos vistos por setores dos investidores locais na manutenção do atual governo.

Uma leitura política dessa eventual trajetória baixista da Selic é que um início conservador permitiria acolher o “risco Flávio” sem desconsiderar indicadores que já sustentam o começo do afrouxamento. Cortes mais expressivos coincidiriam com o aquecimento do processo eleitoral, porém sem ameaça fiscal consistente, segundo consultorias como a Eurasia Group. Uma reta final mais contida funcionaria como sinal de cautela diante da transição para 2027, com riscos associados ao resultado eleitoral e à expectativa por um ajuste fiscal “duro”, mas, por ora, sem acordo nacional.

Leopoldo Vieira
Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias