“A educação contemporânea enfrenta uma encruzilhada histórica. Transição energética, transformação digital e economia azul não são apenas desafios técnicos, são convocações à criatividade coletiva”, aponta o economista Célio Fernando
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No princípio era a arte. Antes das equações e algoritmos, havia mãos pintando nas cavernas, vozes cantando para o cosmos. A arte foi nossa primeira linguagem, nossa primeira ciência. E agora, diante dos desafios do século XXI, redescobrir essa verdade ancestral pode ser nossa salvação: para ir ao futuro, precisamos voltar no tempo.
Shakespeare nos ensinou que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. Manoel de Barros completou essa sabedoria ao celebrar o “despropósito” e a capacidade de “ver o mundo de pernas para o ar” como essência da criatividade. Entre o bardo inglês e o poeta pantaneiro, encontramos a mesma verdade: a educação que transforma é aquela que não mata a capacidade de imaginar, de brincar com possibilidades, de encontrar beleza no ordinário.
A educação contemporânea enfrenta uma encruzilhada histórica. Transição energética, transformação digital e economia azul não são apenas desafios técnicos, são convocações à criatividade coletiva. Leonardo da Vinci não separava arte de engenharia; Einstein tocava violino para desbloquear soluções matemáticas. A inovação nasce quando conectamos o que aparentemente não se conecta, quando imaginamos o que ainda não existe. Como diria Manoel de Barros, é preciso “desaprender oito horas por dia” para enxergar soluções onde só víamos problemas.
Somos o país de 7.491 km de costa atlântica, da Amazônia Azul com 5,7 milhões de km² de oceanos e rios que são veias transportando vida. Na Década dos Oceanos da ONU, a educação ambiental deixa de ser disciplina isolada para tornar-se espinha dorsal do projeto educacional brasileiro e do mundo, o currículo azul. Toda criança deveria conhecer o oceano, sua biodiversidade, sua fragilidade, seu potencial. A alfabetização oceânica é alfabetização para a sobrevivência planetária.
Escolas de tempo integral não podem ser apenas extensão quantitativa, exigem reorganização qualitativa que integre cognitivo e emocional. Não basta saber ciência se não soubermos lidar com frustração, empatia e colaboração. Arte é linguagem emocional essencial. A humanização não é opcional diante da automação, é o que nos mantém essencialmente humanos. Shakespeare perguntou “ser ou não ser?”, mas a verdadeira questão educacional hoje é: que tipo de ser queremos formar para habitar este planeta frágil?
Povos originários carregam ciência milenar: manejo sustentável de florestas, leitura de ecossistemas, visão de sete gerações futuras. Artesanato é tecnologia disfarçada. Reconectar-se com essas “artes antigas” não é regressão, é recuperar processos criativos fundamentais para inovar com consciência planetária. Manoel de Barros sabia disso ao escrever que “tudo que não invento é falso”, lembrando-nos que criar é também preservar, é honrar o que veio antes transformando-o em novo.
A educação deve ser tratada como espinha dorsal que sustenta todas as estratégias nacionais. Cada real investido é investimento em energia limpa, tecnologia soberana, oceanos protegidos. Professores são os maiores agentes de transformação socioambiental e precisam de formação continuada, autonomia pedagógica e valorização real.
Como o amor que permanece quando memórias perdem contorno, a educação sobrevive quando transcende conteúdos. O que fica não são fórmulas decoradas, mas a capacidade de continuar aprendendo; não são datas memorizadas, mas consciência crítica sobre nosso tempo e nosso planeta.
No 24 de janeiro comemoramos o Dia Internacional da Educação, como registrado pelo ministro da Educação, Camilo Santana, devemos buscar o compromisso de construir escolas que sejam ateliês de possibilidades, formar estudantes que sejam guardiões do planeta água, criar uma cultura onde arte, ciência e sustentabilidade caminhem juntas. Entre Shakespeare e Manoel de Barros, entre o palco do mundo e o chão do Pantanal, aprendemos que educar é permitir que cada ser humano descubra sua capacidade infinita de criar, cuidar e transformar.
A arte nos ensinou a sonhar. A educação nos capacita a realizar. A sustentabilidade nos garante que haverá mundo para continuar.
Celio Fernando Bezerra Melo é economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia