“Sábio Pajeú da Fortaleza ultrajada” – Por Luiz Carlos Diógenes

Luiz Carlos Diógenes é também escritor.

Com o título “Sábio Pajeú da Fortaleza ultrajada”, eis artigo de Luiz Carlos Diógenes, graduado em Letras (UFC), servidor público do estado do Ceará e diretor de Cultura e Cidadania da Fundação Sintaf de Ensino e Pesquisa. Eis um belo texto para se ler neste dia chuvoso.

Confira:

Dai de beber a quem tem sede! Assim o fez, o Riacho Pajeú, fluindo seu líquido princípio de pura fonte ecológica, muito além de um apelo só humanitário. Em seu curto percurso quilométrico, que não vai a cinco, povos originários, entre outros viventes, em suas águas dessedentavam-se. Legítimos habitantes de suas margens, em priscas eras. A integridade do todo Pajeú, sujeito ecológico ele mesmo, cobria de dignidade outros sujeitos, partes deste todo, sob um só cobertor, em uma rede pulsante de vida. Sociedade ecológica pajeuana. O pacto intergeracional se cumpria, naturalmente.

Entre o passado e o futuro, esgotados num presente sem começo e sem fim, sustentabilidade socioambiental, vida humana futura, revestem-se de cínica retórica humana, lembrada em discursos empolados, sem curso efetivo, pelos fóruns geopolíticos civilizados. Faustosos e inúteis, carecem de simples olhar para a pegada esquecida e a pisada já debruçada. Verdade última abismal: o equilíbrio dinâmico ecossistêmico um dia se cumpriu. Hoje, verdade despedaçada na desesperança de um tempo que não mais espera, denuncia puídos punhos de uma rede ecológica que balançou sustentada entre armadaores do céu e da terra. Tempo ido, vivido na Fortaleza pajeuana. Todavia, o deus Pajeú não é sujeito de fim temporal, qual os sujeitos humanos. Migra para o seio da Terra ou se volatiza nas nuvens do céu. Como sujeito, dono de sua vontade, por todos os tempos, de ontem e de depois de amanhã, dispõe de cidadania ecológica natural. Aos humanos que sonharam tê-la, resta o lixo acumulado dos fins, de esgares tenebrosos. Única verdade que sobrou! Comecemos, então, por onde tudo começou.

Antes, a empanada do céu se garantia nas estacas brotadas do ventre da terra. Depois, vieram europeus, por séculos que se foram, de variadas estirpes com a mesma fome de riquezas mercantis, argênteas. Mataram índios e a sede, do corpo, nas águas do Riacho Pajeú. Àquela fome insaciável, que não era do corpo, mas de áridos desejos, ainda queima seus espíritos e suas entranhas. Povos da mercadoria, continuam teleguiados, abestalhados, sem sentido e sem destino, vagando sem rumo na mesma aldeia global. Alguns africanos, coisificados, também por lá beberam o doce líquido da vida, na fonte. Um cântico nostálgico das águas do Pajeú embalou a saudade de uma África longínqua. Acalentou, em seu leito de rio, lágrimas de dor a serem curtidas e salgadas, mensageiras de uma sonhada travessia oceânica.

Generosidade sem limites, águas correntes e solidárias de reinos de povos originários. O pote sempre cheio do Pajeú deu de beber a quem tinha muita sede e batia à sua porta, foz de Iracemas. O “riacho de água doce”, em seu desaguadouro, motivo decisivo para a instalação defensiva de um fortim, na cumeeira de uma duna, acalentou o rebento que nascia: a calvinista Fortaleza do Schoonenborch, antes da Nossa Senhora de Assunção. Na aldeia, aldeota de hoje, ainda rebenta a primeira gota do Pajeú, fonte originária. De gota em gota escorria para os filtros de areias soltas. Rastejando seguia engrossando as canelas, ganhando corpo, escondendo-se, traquinas, pelas curvas que alongavam um curto caminho, até se entregar no abraço último do Atlântico universal. Foi assim por todo o tempo edênico. Tempo do Pajeú, riacho dos pajés. Marajaik, rio das palmeiras, é só de depois, de europeus anti-pajés, sem olhos n’alma

Já em tempo de outro tempo, quando o povo desprevenido, pervagava, à toa por uma Fortaleza descalça, às suas margens, sempre vinha se socorrer dos apertos, do descomer o traiçoeiro comido. Quando o riacho, ainda coleava o corpo da cidade que crescia, escondendo-a em uma curva à rua Sampaio, governador, nome de hoje para monarquista nos ferros de ontem, era ali que o povaréu em cumplicidade com o riacho, se aliviava despachando o que já estava pronto. Os eternos e inoportunos incômodos intestinais! Os dois, riacho e povaréu, já inaugurando o espírito moleque fortalezense de ser, batizaram a cloaca salvadora de Beco da Apertada Hora. Acelerado chama a ação dos cirurgiões urbanos, frios homens de olhar retilíneo, afeitos à régua e ao esquadro. As curvas poéticas a surpreenderem o inédito, com a emoção perante o inusitado, foram sendo adelgaçadas até sua finura de desaparecimento.

Outeiro e Aldeota, do outro lado de lá, nasceram para um mundo reto, esquadrinhado, onde riacho escorregadio, amoitado em encruzilhadas e tocaias surpreendentes, é perigo a ser prevenido e exterminado. Matar a fonte do diabo, de onde ele brota, só precisou de
uma linha inconsútil e um quadrilátero de minifúndio privatizado. Entretanto, nem braço nem vontade, de gente humana, conseguem interditar o coração bombeador da primícia seiva pajeuana. O ioiô da água sobe e desce, desce e sobe, para desespero de apressados técnicos, homens concretamente armados. Bem que poderiam, com outra visão, tomarem aulas com um professor bode fortalezense, que também levava a vida a subir e a descer.

Se uma fonte deixa interstícios de minúsculos canais aquíferos, que dirá uma foz, junção de canais ostensivos e carnosos?! Espetacularmente inclementes nas bátegas de chuvas invernais. Sufocar o Pajeú no berço, até o último suspiro, ou asfixiá-lo em seu curso, antes da sua entrega nupcial ao mar, troca de líquidos prolíficos, deixa um cadáver insepulto, um zumbi a atormentar uns parvos e dilapidar tesouros orçados do
povo. Este, ignaro de tudo, continua a pagar uma conta que só sobe, em uma vida que só desce para a cloaca opressora de todo dia.

Um Guimarães, encantador de rios, descobriu uma terceira margem. Todavia o rio roseano é imensamente longo, largo a ponto da primeira margem não dialogar com a segunda. E vice-versa. Mas o Pajeú, um riacho curtinho, que se faz a pé contando os passos, e estreitinho que se atravessa por uma pinguela, pode ter terceira margem? Se um rio tem terceira margem, por onde escorrem reminiscências líquidas dos espíritos ribeirinhos que por ele sobrevoam, a primeira margem sempre será o porto dos primeiros usurpadores, ao fincaram suas estacas de estadia, erguendo, à força da bala e do credo, a civilização da mercadoria. A segunda margem surge no curioso olhar cobiçoso da travessia. Amadurece com os rebentos já aclimatados na exploração. Mas a terceira, só a divisa olhos d’alma, abertos à trama miraculosa das coisas ecológicas.

A terceira margem se insinua ao coser, na mesma tessitura de vida, as duas outras margens ostensivas, paralelas, que nunca se encontram nem trocam suas mágoas. A terceira margem é finalmente a aliança do impossível encontro prometido. Ela emerge no meio do rio, da sua espinha dorsal, gotejando um místico tutano espiritual. Fundamento da teia imbricada da vida na imanência profunda da ecologia mental. Esta é dada a poucos, vê-la. Entre nascente e foz, que resta do ser pajeuano? A nostálgica terceira margem, de um doce e sábio Pajeú da Fortaleza amada, mas tão ultrajada!

*Luiz Carlos Diógenes

Graduado em Letras (UFC), servidor público do estado do Ceará, diretor de Cultura e Cidadania da Fundação Sintaf de Ensino e Pesquisa.

lucadiogenes@hotmail.com

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