“Por que o Nipah reacende o debate sobre preparo e como o ELMO conversa com a agenda global?” – Por Eduardo Sousa

Professor Eduardo Sousa é pesquisador da UFC. Foto: UFC

“História recente já ensinou que o que decide o tamanho do estrago não é só o vírus, é a prontidão”, aponta o professor e pesquisador

Confira:

Antes de qualquer discussão sobre risco, vale entender o básico da epidemiologia do Nipah. Não é um vírus que circula de forma contínua entre humanos, como influenza ou sarampo. Ele é, em essência, um vírus zoonótico, com reservatórios naturais em morcegos frugívoros, e que aparece quando há um salto entre espécies. Esse salto costuma ocorrer em cenários muito específicos: exposição a secreções de morcegos em frutas e alimentos, consumo de produtos contaminados, contato com animais intermediários em algumas situações, e, em surtos documentados, transmissão entre pessoas em contato muito próximo, sobretudo no ambiente familiar e hospitalar.

Esse detalhe muda tudo. A transmissibilidade do Nipah não se comporta, em geral, como a de um vírus respiratório de alta propagação comunitária. Ele tende a formar clusters, com cadeias curtas e intensas, sustentadas por proximidade, cuidados diretos e falhas de controle de infecção. Isso não reduz a gravidade do risco, apenas o torna diferente. O perigo maior não está em uma expansão silenciosa e difusa, e sim em um evento localizado que cresce rápido dentro de hospitais e famílias, com alto impacto por caso. Aí entra a tensão: um vírus que não precisa infectar milhões para desorganizar um sistema de saúde.

O surto pode até começar pequeno, em uma região distante, com poucos casos notificados. Mas a história recente já ensinou que o que decide o tamanho do estrago não é só o vírus, é a prontidão. E, quando não existe terapia específica, o que salva vidas não é uma molécula, é a capacidade do sistema de saúde de responder com velocidade, protocolo, gente treinada e suporte respiratório disponível.

É por isso que vírus como o Nipah, recorrente em surtos localizados na Ásia, funcionam como um alerta, não apenas pelo risco intrínseco, mas porque expõem uma fragilidade global: a distância entre o conhecimento científico e a capacidade operacional na ponta.

O Nipah está voltando ao radar internacional por um motivo simples, ele combina alta gravidade com lacunas de proteção. Ele não precisa ser comum para ser relevante. Basta reunir letalidade potencial elevada, ausência de vacina amplamente disponível e capacidade de gerar surtos em regiões densamente povoadas para colocar o mundo em estado de atenção.

O que assusta não é uma explosão inevitável e imediata, é o fato de que, quando esse tipo de vírus aparece, ele expõe o que há de mais frágil nos sistemas de saúde: a dependência de reação tardia, a falta de treinamento contínuo, a escassez de suporte respiratório e a dificuldade de escalar cuidado com segurança.

Do ponto de vista de transmissão, o Nipah segue um roteiro diferente do que o público costuma imaginar quando ouve a palavra surto. Ele surge a partir de um evento de exposição e, a partir daí, pode gerar transmissão entre pessoas, mas quase sempre em contextos de proximidade intensa. Isso dá ao surto uma cara particular: menos “onda comunitária” e mais “incêndio em ambientes específicos”. Se a vigilância demora e o controle de infecção falha, o incêndio cresce. Se a resposta é rápida, ele é contido.

Em geral, ele não se comporta como um vírus de circulação comunitária sustentada por longos períodos. Ele surge em clusters que exigem vigilância rápida, rastreamento e controle de infecção. Esse padrão gera um tipo de risco frequentemente mal interpretado. Não é necessariamente o risco de se espalhar pelo mundo inteiro em semanas, é o risco de causar dano desproporcional quando o sistema está despreparado.

Um evento localizado pode produzir estresse de UTI, falta de oxigênio, ruptura de fluxo e adoecimento de profissionais se não houver disciplina de resposta.

O Nipah é lembrado pelo risco de encefalite e gravidade neurológica, mas existe um componente frequentemente subestimado: sintomas respiratórios, pneumonia e insuficiência respiratória aparecem em parte dos casos, e insuficiência respiratória é um amplificador de crise em qualquer lugar do mundo.

Basta uma porcentagem pequena de pacientes evoluir com hipoxemia e esforço respiratório importante para colocar pressão sobre oxigênio, monitorização, equipe, sedação, intubação, ventiladores e leitos críticos. É o tipo de trajetória que transforma um surto pequeno em um problema grande para a rede.

Em doenças sem vacina amplamente disponível e sem antiviral específico consolidado, o que muda desfecho é suporte e organização: suporte respiratório, suporte neurológico, estabilidade hemodinâmica, prevenção de complicações e um pilar inegociável, prevenção e controle de infecção para proteger profissionais e reduzir transmissão em serviços de saúde.

Esse é o ponto mais duro e mais importante: quando a ciência ainda não entregou um tratamento específico, o tratamento é o próprio sistema, um sistema que antecipa, padroniza e treina, que cria fluxos, mede tempo de resposta e escala capacidade, que não improvisa em cima de plantão lotado.

Nesse contexto, o debate global sobre preparo para pandemias ganhou um porta voz influente nos últimos anos, Bill Gates. Concorde-se ou não com ele, há uma tese pragmática que merece ser ouvida. Pandemias não são um cisne negro, são um risco recorrente, e o mundo deveria tratá-las como trata incêndios e desastres naturais, com equipes permanentes, treino contínuo, métricas de prontidão e investimento sustentado antes do caos.

Gates defende uma arquitetura de resposta que inclui vigilância, detecção precoce, capacidade de testes, plataformas de vacina e uma força de resposta rápida, uma espécie de brigada internacional para agir antes que um surto ganhe escala. A intuição por trás disso é simples: se você age cedo, o surto fica pequeno, se você age tarde, você paga com UTI, ventilador e mortes.

Mas existe um pedaço dessa tese que costuma ficar fora do holofote: preparo não é apenas biotecnologia, preparo também é infraestrutura de cuidado e suporte, é como o sistema compra tempo até que vacinas e tratamentos cheguem.

Foi durante a COVID-19 que o Ceará colocou no mapa um exemplo de inovação de baixo custo, com desenho inteligente e pragmático, uma engenharia frugal no melhor sentido da palavra. O capacete ELMO, uma interface para CPAP em alto fluxo, foi pensado para ampliar suporte respiratório não invasivo em pacientes selecionados.

O mérito do ELMO não foi substituir UTI, foi funcionar como gatekeeper do sistema, segurar parte dos pacientes em um patamar intermediário de suporte e reduzir progressão imediata para intubação quando isso é clinicamente possível e seguro.

O projeto ganhou forma com a liderança de Marcelo Alcântara Holanda e da equipe do RespLab-UFC, que articularam ciência, engenharia e prática assistencial para transformar uma ideia em dispositivo utilizável e treinável, e não apenas um protótipo de laboratório.

Na pandemia, trabalhos brasileiros relataram boa tolerabilidade e desempenho relevante em reduzir necessidade de intubação em coortes específicas, com uso em enfermaria e suporte estruturado. Mais importante do que um número isolado é o que ele representa: uma estratégia para aliviar pressão de ventiladores e leitos críticos em momentos de pico.

E aqui entra um diferencial que raramente aparece em debates públicos sobre inovação em saúde: tecnologia sem treinamento vira risco. O que tornou o ELMO replicável foi o pacote completo, protocolo, capacitação, treinamento em rede, equipe núcleo que ensina os demais e uma curva de aprendizado factível para a realidade de crise.

Em outras palavras, exatamente o tipo de solução que combina com a lógica de prontidão defendida por Gates, escalável, treinável, segura quando bem protocolada e capaz de sustentar o sistema enquanto a resposta de laboratório não chega.

O Brasil não sofre por falta de inteligência, sofre por falta de continuidade. A pesquisa aplicada em saúde, aquela que traduz ciência em operação, é frequentemente subfinanciada, fragmentada e interrompida. O resultado é conhecido: iniciativas promissoras dependem de heróis, não de instituições, e heróis cansam.

Se o mundo leva a sério a ideia de preparo, o Brasil precisa parar de entrar atrasado em cada crise, precisa disputar espaço onde as decisões e os recursos estão, precisa transformar boas soluções em evidência sólida e implementação replicável.

A pergunta, então, é legítima: a Fundação Bill e Melinda Gates poderia financiar estudos nessa direção? É possível, mas não por acaso. Em geral, fundações globais operam por prioridades, chamadas temáticas e parcerias, não apenas por propostas espontâneas. Ou seja, não basta ter um bom projeto. É preciso encaixar o projeto na agenda de saúde global, mostrar escalabilidade, impacto mensurável e capacidade de execução.

Uma estratégia realista seria construir um consórcio com instituições brasileiras e parceiros internacionais, propor um programa enxuto de evidência aplicada em suporte respiratório de baixo custo, com três entregas claras: segurança, efetividade em desfechos clínicos e modelo de implementação em escala com treinamento.

No fim, o debate sobre Nipah, e sobre qualquer outro vírus com potencial de gravidade, deveria nos levar a uma conclusão simples: o mundo precisa de ciência, mas também precisa de sistema, precisa de vacina, mas também de oxigênio e protocolo, precisa de genômica, mas também de treinamento.

O ELMO pode ser visto como uma peça de engenharia. Mas, no fundo, ele é um símbolo de algo maior: inovação de baixo custo e frugal, treinável, escalável, que protege o sistema no intervalo crítico entre o início do surto e a chegada das soluções específicas.

Se a tese de preparo global é correta, então o Brasil tem uma oportunidade rara. Em vez de apenas consumir tecnologia, pode produzir evidência e exportar resiliência.

E isso, num país que historicamente financia pouco pesquisa aplicada, seria mais do que um artigo. Seria uma escolha estratégica.

Eduardo Sousa é professor e pesquisador da UFC

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias