Com o título “Banco Master, o INSS e a Promiscuidade entre os Três Poderes no Governo Petista”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “(…) o histórico do Banco Master só conseguiu sobreviver por tanto tempo graças à combinação clássica que sustenta os grandes escândalos nacionais, e na qual o PT adquiriu reconhecida expertise: tráfico de influência, conflitos de interesses e corrupção em estado puro”, expõe o articulista.
Confira:
Os brasileiros estão perplexos e indignados com o nível estratosférico de corrupção instalado no território nacional. Os sucessivos escândalos que emergem do coração do Estado brasileiro, envolvendo figurões dos três Poderes da República, revelam uma engrenagem muito mais profunda e corrosiva do que se supunha. Trata-se de um sistema perverso de espoliação institucionalizada, com ramificações capazes de comprometer gravemente a saúde financeira do INSS – confiscando a renda de milhões de aposentados indefesos – e de colocar em risco a estabilidade do sistema financeiro nacional, com implicações seríssimas para a economia do país.
O que se assiste não é um desvio pontual, mas uma ameaça concreta e estrutural, capaz de implodir a já desfigurada República patrimonialista brasileira. Em Brasília, epicentro desse consórcio de poder, cada nova revelação, cada nome exposto, produz ondas de sobressalto e pânico nos corredores oficiais. Segundo informações que circulam com insistência na grande mídia, o cenário tende a se agravar a partir da manhã de hoje, 2 de fevereiro, com o fim do recesso parlamentar e a retomada dos depoimentos nas CPIs e CPMIs, inaugurando uma dinâmica de revelações que promete atingir, em profundidade, o presidente Lula e seu entorno familiar, ministros do STF, membros destacados do governo e mais de uma centena de congressistas, elevando a crise a um patamar institucional explosivo.
Em sentido figurado, os gabinetes de Brasília vivem um autêntico clima de “barata voadora”. Imagine-se a reação de dezenas de pessoas confinadas em uma sala fechada quando, subitamente, surgem baratas voadoras: o desespero é imediato, a compostura se dissolve e os gestos civilizados cedem lugar a gritos, correrias e tentativas patéticas de autopreservação. É exatamente esse o ambiente que hoje paira sobre os salões climatizados dos Poderes da República. A cada nova revelação envolvendo o escândalo do INSS e do Banco Master, figurões dos três Poderes batem asas em pânico, expondo, entre tropeços retóricos e silêncios constrangedores, seus vínculos nada republicanos com um esquema que ameaça implodir o verniz moral da República lulista.
Há, ainda, fortes indícios de que novas e graves revelações virão a público, atingindo personagens que orbitam o núcleo do poder presidencial. Até aqui, o aprofundamento das investigações aponta, sem margem para tergiversações, que o escândalo do Banco Master carrega o DNA do petismo. Nada que surpreenda quem acompanha a trajetória do partido, cuja relação orgânica com a corrupção se consolidou como verdadeiro modus operandi. O que se desenha agora, entretanto, assume proporções inéditas: o que já desponta como o maior escândalo financeiro da história do país teria suas raízes fincadas em operações meticulosamente arquitetadas durante o governo de Rui Costa na Bahia, hoje chefe da Casa Civil do governo Lula, e gerenciadas com habilidade cirúrgica por Jaques Wagner, então coordenador executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico (Codes) e atual líder do governo no Senado.
Em abril de 2018, o então governador Rui Costa protagonizou um ato administrativo decisivo na trajetória de maracutaias encabeçada por Daniel Vorcaro. Por ato de ofício, ampliou a margem de consignação do Credcesta – cartão de crédito com desconto direto em folha de servidores ativos e inativos – de 30% para escandalosos 70%. Valendo-se de seu poder discricionário, promoveu, na prática, sua privatização, beneficiando diretamente Augusto Lima, então CEO do Banco Máximo e sócio de Vorcaro. Em curtíssimo espaço de tempo, e por razões jamais esclarecidas, o Banco Máximo mudou sua razão social para Banco Master, consolidando um arranjo que expõe, de forma cristalina, a simbiose entre poder político, interesses financeiros e decisões de Estado.
A ascensão do Banco Master ocorreu em ritmo incomum. Ainda em 2018, Vorcaro e Augusto Lima deixaram o circuito baiano e passaram a transitar nos grandes polos financeiros do país, como a Faria Lima, ampliando de maneira agressiva o alcance do Credcesta. Atualmente, o programa, sempre contando com o respaldo de personalidades influentes da política nacional, está presente em 24 estados e em 176 municípios.
Consciente de que suas práticas financeiras extrapolavam os limites da legalidade e da prudência institucional, Daniel Vorcaro tratou de recorrer a um expediente clássico do capitalismo de compadrio brasileiro: substituir a solidez jurídica por uma blindagem política de largo espectro. Não se tratava de alianças circunstanciais, mas da construção deliberada de uma rede de proteção estendida aos três Poderes da República. Nessa engrenagem figuravam caciques da política baiana, como Rui Costa, Jaques Wagner, ACM Neto e Otto Alencar. No plano nacional, Vorcaro contava com o apoio de operadores de alto calibre, entre eles Arthur Lira, Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Davi Alcolumbre e Hugo Motta. A estratégia era cristalina: capturar o sistema político para tornar inócuas eventuais investigações, fiscalizações ou responsabilizações.
No chamado Comitê Consultivo e Estratégico do Banco Master, Vorcaro reuniu personagens de altíssimo prestígio nos campos jurídico, político e econômico. Figuravam entre eles Henrique Meirelles e Gustavo Loyola, ambos ex-presidentes do Banco Central, além de Michel Temer, ex-presidente da República. Soma-se a isso o que tem sido descrito como apoio tácito de ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. A estrutura de proteção incluía ainda a contratação do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, pelo valor estratosférico de R$ 129 milhões. Acrescentem-se os vínculos com Guido Mantega, remunerado com salário mensal de R$ 1 milhão, e com Ricardo Lewandowski que, mesmo ocupando o cargo de ministro da Justiça, teria recebido a “modesta” quantia de R$ 250 mil mensais. Segundo informações divulgadas pela grande mídia, apenas em 2025 o Banco Master teria desembolsado mais de R$ 600 milhões sob a rubrica “assessoria jurídica”.
À luz dos fatos aqui narrados, o histórico do Banco Master só conseguiu sobreviver por tanto tempo graças à combinação clássica que sustenta os grandes escândalos nacionais, e na qual o PT adquiriu reconhecida expertise: tráfico de influência, conflitos de interesses e corrupção em estado puro. Nada disso, contudo, causa espanto. Trata-se de um arranjo perfeitamente funcional em um governo cuja relação com a corrupção não constitui um desvio ocasional, mas um elemento estrutural do seu próprio DNA político.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.