“O Abismo Geracional Digital” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvalho é advogdo e mestre em Negócios Internacionais.

Com o título “O Abismo Geracional Digital”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais. “A imposição de uma sociabilidade mediada por dispositivos digitais reconfigurou comportamentos, afetos e valores, afastando gerações e contribuindo decisivamente para a erosão do senso coletivo. Compreender esse fenômeno exige não apenas uma análise tecnológica, mas também sociológica, filosófica e cultural, capaz de revelar os impactos silenciosos dessa transformação sobre o tecido das relações humanas”, expõe o articulista.

Confira:

O advento das tecnologias digitais, em especial a popularização dos smartphones a partir da primeira década do século XXI, produziu um dos mais profundos abismos geracionais já observados na história recente. Diferentemente de outras revoluções tecnológicas, que ocorreram de forma gradual, a digitalização das relações sociais foi abrupta e, em grande medida, imposta às gerações que já haviam estruturado sua sociabilidade em bases analógicas. Para essas gerações, a inserção no universo virtual não foi uma escolha orgânica, mas uma exigência social, econômica e comunicacional, criando um descompasso cognitivo, emocional e relacional em relação àqueles que já nasceram imersos nesse ambiente digital.

Autores como Manuel Castells (1999) apontam que a sociedade em rede reorganiza não apenas os fluxos de informação, mas também as formas de poder, identidade e pertencimento. No entanto, enquanto os chamados “nativos digitais” (Prensky, 2001) desenvolvem desde cedo habilidades cognitivas moldadas pela hiperconectividade, as gerações anteriores precisaram adaptar-se a uma lógica comunicacional fragmentada, imediatista e mediada por telas, muitas vezes sem o devido preparo psicológico e cultural. Essa diferença estrutural ajuda a explicar conflitos intergeracionais cada vez mais frequentes, sobretudo no âmbito familiar.

No contexto das relações familiares, observa-se uma ruptura nos modos tradicionais de convivência e transmissão de valores. Zygmunt Bauman (2001), ao tratar da “modernidade líquida”, descreve como os vínculos humanos tornam-se mais frágeis, voláteis e descartáveis. A tecnologia intensifica esse processo ao substituir a presença pela conectividade e o diálogo pela troca rápida de mensagens. Pais e filhos, apesar de fisicamente próximos, frequentemente encontram-se separados por universos simbólicos distintos, com linguagens, referências culturais e expectativas incompatíveis. O resultado é um enfraquecimento do senso de continuidade geracional e da autoridade simbólica construída historicamente no seio familiar.

Esse fenômeno torna-se ainda mais evidente nas relações amorosas. Aplicativos de relacionamento e redes sociais transformaram profundamente a forma como os afetos são construídos, negociados e descartados. Eva Illouz (2007) analisa como o capitalismo emocional e a racionalização dos sentimentos convertem o amor em um mercado de escolhas rápidas, mediadas por algoritmos e pela lógica da performance. Para gerações que aprenderam a amar em contextos de maior estabilidade e presença física, essa nova gramática afetiva produz estranhamento, insegurança e sensação de perda de profundidade emocional. Já para os mais jovens, a fluidez das relações é
frequentemente naturalizada, reforçando padrões de desapego e substituibilidade.

Além disso, o predomínio das interações virtuais contribui para o fortalecimento de um individualismo cada vez mais acentuado. Byung-Chul Han (2015) argumenta que a sociedade do desempenho e da autoexposição digital promove sujeitos voltados para si mesmos, constantemente engajados na construção de uma imagem idealizada. Esse processo enfraquece a noção de coletividade e solidariedade, substituindo o “nós” pelo “eu” como centro da experiência social. As gerações mais antigas, formadas em contextos de maior convivência comunitária, percebem essa mudança como uma perda de densidade ética e social, enquanto as mais jovens tendem a vê-la como expressão de autonomia e liberdade.

Assim, o abismo tecnológico entre gerações não se resume a uma diferença no uso de ferramentas, mas representa uma cisão profunda nos modos de perceber o mundo, construir vínculos e compartilhar experiências. A imposição de uma sociabilidade mediada por dispositivos digitais reconfigurou comportamentos, afetos e valores, afastando gerações e contribuindo decisivamente para a erosão do senso coletivo.

Compreender esse fenômeno exige não apenas uma análise tecnológica, mas também sociológica, filosófica e cultural, capaz de revelar os impactos silenciosos dessa transformação sobre o tecido das relações humanas.

*Vanilo de Carvalho

Advogado e Mestre em Negócios Internacionais.

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias