“A Economia Criativa no Mundo Digital: De William Shakespeare a Sam Altman, passando por Jorge Amado, Ariano Suassuna e Raquel de Queiroz” – Por Anna Karine e Célio Fernando

Com o título “A Economia Criativa no Mundo Digital: De William Shakespeare a Sam Altman, passando por Jorge Amado, Ariano Suassuna e Raquel de Queiroz”, eis artigo de Anna Karine Gurgel, administradora, secretária de Economia Criativa e Inovação do Consórcio Nordeste, e Célio Fernando Bezerra Melo, economista, vice-presidente da Academia Cearense de Economia.

É no espanto com o novo que o sertão aprende a inventar caminhos”, Raquel de Queiroz

Confira:

A criatividade tende a prosperar quando a infraestrutura tecnológica expande o alcance das ideias de forma sustentável e inovadora. A imprensa tipográfica projetou Shakespeare para além de seu tempo; o rádio e a televisão difundiram as narrativas de Jorge Amado, Ariano Suassuna e Raquel de Queiroz; e a inteligência artificial generativa, conceito central nas reflexões de Sam Altman, inaugura um ciclo em que prompts substituem penas e a produção simbólica se mede em operações computacionais. Entretanto, a Economia Criativa ainda representa muito pouco no PIB brasileiro, concentrada majoritariamente no Sudeste. Para alterar esse quadro com responsabilidade ambiental e social, o Nordeste necessita de políticas integradas que articulem patrimônio cultural, infraestrutura verde de dados, educação STEAM, inovação tecnológica inclusiva e mecanismos sustentáveis de financiamento.

Um primeiro passo inovador seria implantar data centers carbono-negativos no Ceará, modelo pioneiro na América Latina que vai além da neutralidade climática ao capturar mais carbono do que emite. Esses centros seriam abastecidos exclusivamente por contratos de energia eólica offshore e solar fotovoltaicos, resfriados por sistemas de água de reuso tratada e projetados com arquitetura bioclimática que reduz em até 40% o consumo energético. A proposta se inspira no data center do Google em Hamina, na Finlândia, que opera com energia 100% renovável desde 2011, mas inova ao integrar práticas de economia circular, como o reaproveitamento do calor residual para aquecimento de estufas agrícolas comunitárias e dessalinização de água do mar. Essa inovação em sustentabilidade permitiria que os centros processassem conteúdos de realidade estendida e inteligência artificial de forma socialmente e ambientalmente responsável, atendendo escolas, estúdios
independentes e instituições culturais, ao mesmo tempo em que geram empregos verdes e promovem a transição energética justa na região.

A segunda iniciativa propõe a criação do "Creative Cloud Sandbox Brasil", conceito inovador inédito no país que democratiza o acesso à infraestrutura tecnológica de ponta. O programa concederia créditos gratuitos de GPU e armazenamento sustentável à rede pública de ensino nordestina para desenvolvimento de experiências imersivas, garantindo que estudantes de comunidades periféricas e rurais tenham as mesmas oportunidades de inovação que jovens de grandes centros urbanos. O modelo se inspira nas iniciativas sul-coreanas de democratização de recursos computacionais para educação, implantadas a partir de 2022, mas inova ao estabelecer métricas de impacto socioambiental, exigindo que 30% dos projetos estudantis abordem desafios de sustentabilidade local como preservação da Caatinga, gestão
hídrica, energia renovável comunitária e economia azul. A gestão seria conduzida por uma fundação público-privada vinculada ao Ministério da Educação, com implementação em fase piloto contemplando vinte escolas em cinco estados entre 2026 e 2028. O financiamento viria de renúncia fiscal negociada com os novos data centers verdes, estabelecendo um modelo inovador de contrapartida socioambiental, além de parcerias com provedores de cloud computing comprometidos com práticas ESG.

Para assegurar remuneração justa e promover inovação em direitos autorais digitais, recomenda-se registrar portfólios escolares em blockchain verde, utilizando protocolos de baixo consumo energético como proof-of-stake, e atribuindo micro-royalties sempre que empresas licenciem esses conteúdos. Essa inovação em propriedade intelectual coletiva permitiria que comunidades escolares recebam retorno financeiro de suas criações, incentivando a produção cultural sustentável. A Estônia já mantém sistemas avançados de certificação digital de competências por meio de suas plataformas e-Residency e X-Road, evidenciando a viabilidade técnica da proposta, mas o modelo
brasileiro inova ao incorporar rastreabilidade de impacto ambiental e social de cada projeto registrado.

O motor financeiro de toda essa engrenagem seria o Fundo Nordeste Criativo Digital, instrumento inovador de financiamento a ser criado mediante projeto de lei complementar a ser apresentado ao Congresso Nacional em 2026. A proposta prevê capital inicial de quinhentos milhões de reais provenientes do BNDES, do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste e de recursos de renúncia fiscal acordada entre os estados da região, complementados por títulos verdes e investimentos de impacto internacionais atraídos pelos compromissos de sustentabilidade do programa. A gestão operacional seria confiada ao Banco do Nordeste, sob supervisão de um comitê interministerial
que incluiria especialistas em sustentabilidade e inovação social. O texto legal determinaria aumentos quinquenais até totalizar cinco bilhões de reais em 2050, reservando quarenta por cento dos aportes a projetos que conectem escolas, museus comunitários e startups de impacto social, com exigência obrigatória de que todos os projetos financiados apresentem planos de neutralidade de carbono e inclusão de populações vulneráveis. Instrumentos com lógica semelhante operam no Reino Unido por meio do Creative Industries Clusters Programme, no Canadá através do Creative Export Canada e na Argentina com o Fondo Nacional de las Artes, mas o modelo brasileiro inova ao estabelecer critérios vinculantes de sustentabilidade ambiental e justiça climática.

A governança de dados ficaria a cargo do Conselho Nacional de Economia Criativa Digital, órgão colegiado inovador a ser criado por decreto presidencial, composto por representantes dos ministérios da Cultura, Educação, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Povos Originários, BNDES, Banco do Nordeste, associações setoriais, sociedade civil e representantes de comunidades criativas e tradicionais. Entre suas atribuições estaria manter um painel público em tempo real que divulgue indicadores de receita, emissões de carbono, consumo de água e energia, geração de empregos verdes, inclusão digital e resultados educacionais, constituindo-se no primeiro observatório brasileiro de
economia criativa sustentável. O painel seria inspirado no trabalho do Office for National Statistics britânico e na estrutura da Creative Australia, mas inova ao integrar dados de impacto socioambiental verificados por auditoria independente, utilizando metodologia alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e aos princípios da economia circular.

Complementarmente, sugere-se que a próxima revisão da Base Nacional Comum Curricular, prevista para tramitar a partir de 2027, inclua progressivamente até 2033 componentes de design ético de tecnologias, fundamentos de inteligência artificial generativa responsável, storytelling interativo e transmídia com foco em narrativas sustentáveis, além de competências em realidade estendida aplicada a soluções de sustentabilidade como visualização de impactos climáticos, simulação de ecossistemas e patrimônio cultural imaterial em formato digital. As referências pedagógicas incluem o currículo finlandês de programação no ensino básico, o Model Music Curriculum do Department for
Education britânico e o framework STEAM da UNESCO, mas inova ao incorporar obrigatoriamente a dimensão de sustentabilidade em todas as competências desenvolvidas. No Nordeste, vinte Institutos Federais atuariam como laboratórios-piloto de educação XR sustentável entre 2026 e 2028, utilizando equipamentos com certificação de baixo impacto ambiental e desenvolvendo projetos de inovação voltados para desafios climáticos regionais como convivência com a seca, preservação da biodiversidade da Caatinga, transição para energias renováveis e economia azul no litoral. A expansão contemplaria cem unidades até 2035, com docentes treinados em residências que articulem inovação tecnológica e sustentabilidade, vinculadas a programas internacionais como o CoSTAR britânico e a rede de Cátedras UNESCO de Sustentabilidade.

Se essas propostas forem implementadas de forma gradual, coordenada e comprometida com a inovação sustentável, a herança cultural de Jorge Amado, Ariano Suassuna e Raquel de Queiroz poderá renascer em formatos digitais verdes, enquanto estudantes nordestinos assumem protagonismo em uma revolução criativa que conecta a inventividade de Shakespeare à visão transformadora de Sam Altman, mas com a consciência socioambiental que o século XXI exige. O caminho exige articulação federativa, investimento estratégico em infraestrutura verde, governança participativa e compromisso inabalável com a sustentabilidade. O potencial de transformar o Nordeste em polo de economia criativa digital sustentável e inovadora não é apenas viável, mas urgente e necessário para a justiça regional, climática e a diversidade cultural brasileira, demonstrando que inovação tecnológica e responsabilidade ambiental podem caminhar juntas na construção de um futuro mais justo, próspero e sustentável.

Blog do Eliomar
Célio Fernando é vice da Academia Cearense de Economia. Foto: Reprodução

*Anna Karine Gurgel, administradora e secretária de Economia Criativa e Inovação do Consórcio Nordeste

*Célio Fernando Bezerra Melo, economista e vice-oresidente da Academia Cearense de Economia.

*Referências Bibliográficas

Altman, Sam. "Planning for AGI and Beyond". OpenAI Blog, 2023.
Amado, Jorge. Gabriela, Cravo e Canela. Rio de Janeiro: Record, 1958.
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Canberra, 2022-atual.
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2023.
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Ministério da Cultura. Plano Nacional de Cultura 2022-2032. Brasília, 2022.

Queiroz, Raquel de. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 1930.
Shakespeare, William. Mr William Shakespeare's Comedies, Histories &
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Suassuna, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Agir, 1955.
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2022.
United Nations. Transforming our World: the 2030 Agenda for Sustainable
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World Economic Forum. The Global Risks Report 2024. Genebra, 2024.

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