“Os avanços do Ceará na alfabetização e primeiro ciclo do fundamental são inegáveis e são fatos. A propaganda que a educação do Ceará, como um todo, é campeã é apenas um mito”, aponta o economista Marcos Holanda
Confira:
No início do primeiro mandato do governo Cid Gomes ocupava o cargo de diretor geral do Ipece. Naquele momento apresentei uma proposta ousada que seria vincular os repasses do ICMS aos municípios ao desempenho desses na educação. O apoio do governador foi imediato e decisivo e a proposta virou lei. A lei do ICMS criou um incentivo poderoso aos prefeitos para priorizar a educação não apenas nas obras físicas, mas principalmente no aprendizado dos alunos. Para obter mais recursos tinha que mostrar resultados e não apenas obras. Essa Lei virou referência no Brasil e no mundo a partir da chancela e divulgação do Banco Mundial.
Os avanços do Ceará na alfabetização e primeiro ciclo do fundamental são inegáveis e são fatos. A propaganda que a educação do Ceará, como um todo, é campeã é apenas um mito. A realidade é que a educação ao nível dos municípios avançou bastante, mas aquela de responsabilidade do estado, a do ensino médio, continua muito ruim.
Os dados do sistema de desempenho dos alunos do estado (Spaece), mostram que ao final do ciclo do ensino médio, apenas 1 em cada 10 alunos tem nota adequada em matemática e 2 em cada 10 em português. Pior ainda, 70% dos alunos tem nota muito crítica ou critica em matemática e 44% em português. Como viabilizar empregabilidade e um futuro promissor aos nossos jovens se eles não têm a menor chance de competir no mercado?
Precisamos de forma urgente de um choque de gestão no ensino médio. Um choque que entenda que construir mais escolas, contratar mais professores e mesmo pagar pela frequência dos alunos não é suficiente. Se os jovens só têm interesse em frequentar a escola se forem remunerados e se na escola o ensino ofertado é ruim, temos alunos apenas passando tempo e não se preparando para o futuro. Na nova economia o papel principal do ensino médio e dar empregabilidade aos jovens. Precisamos entender que eles preferem ser empreendedores a serem eternamente um trabalhador de salário mínimo. Cada vez mais a expectativa é ter um CNPJ e não uma CLT.
Temos que ter um choque de uso da IA no ensino. Não adianta resistir a essa realidade por mais que sejam os interesses corporativos. A prioridade são os alunos e não os professores, dirigentes e políticos que vivem do setor. A IA pode ser a porta de entrada para um ensino médio mais efetivo capaz de ofertar ensino de rico para os jovens mais pobres.
Precisamos enfrentar o mito da educação campeã e parar de falhar com os nossos jovens.
Marcos C Holanda é PhD em Economia