Com o título “É melhor guardar a panelada do que perder a conta – dizia Zilá Araújo”, eis mais um conto da lavra de Fabrício Moreira, advogado e contista.
Confira:
Zilá, que já partiu desta vida deixando inúmeras e boas lembranças, era proprietária de um ponto comercial às margens do Mercado Velho, no Centro de Icó. Ali preparava saborosas iguarias da culinária regional, servia o melhor cafezinho da cidade e era conhecida também por suas tiradas pitorescas e, vez por outra, por seu temperamento enfezado.
Sua irreverência transformou o pequeno comércio em ponto de encontro de políticos influentes da Ribeira do Salgado, comerciantes e gente simples do povo, que ali se reuniam diariamente para trocar ideias e, claro, provocar Zilá, na esperança de ouvir uma resposta à altura da brincadeira.
Pois bem. Em uma certa segunda-feira, quando a feira e as vendas já haviam sido fracas, por volta das 19 horas, Zilá se preparava para guardar as paneladas, as buchadas e os demais produtos que não tinham sido vendidos, na tentativa de comercializá-los no dia seguinte.
Eis que surge, em seu ponto, um daqueles fregueses que aparecem “uma vez na vida e outra na morte” e que, por sinal, já lhe devia “uma continha”, convenientemente esquecida.
– Boa noite, dona Zilá!
Ela, não muito animada com o movimento do dia e com a delicadeza que lhe era peculiar, respondeu apenas:
– Boa.
O freguês, cheio de esperteza, arriscou:
– Dona Zilá, será que a senhora poderia me vender uma panelada para eu pagar amanhã?
Zilá nem pestanejou:
– Já estou guardando tudo na geladeira, exatamente para não perder a conta”
*Fabrício Moreira da Costa, com Damião Diniz
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