“Conflito com Teerã expõe erro estratégico de Washington e reacende risco de guerra de grandes proporções no Oriente Médio e além”, aponta o educador André Barrosos
Confira:
Irã não é a Venezuela. No ano passado, os EUA fizeram um ataque ao Irã, em apoio a Israel, para destruir instalações nucleares iranianas. Naquela época, disseram que “obliteraram o programa nuclear do Irã” em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo usados para enriquecer urânio, e não houve uma resposta tão enfática ao ataque. Muito em razão de Ali Khamenei, que, apesar de xiita, sempre adotou uma postura de debate. Agora, não sabemos quem o sucederá, mas sabemos que a morte por assassinato de quem usa o turbante preto é considerada um ataque direto ao seu Deus. Afinal, Khamenei era hojatoleslam, que é um sayyid, um descendente direto do Profeta Maomé.
Parece que os Estados Unidos não aprenderam com a história. E deveriam aprender sobre a história milenar do povo persa na arte da guerra e da resistência. Desde o Império Aquemênida até os Sassânidas, os persas foram uma das maiores potências da Antiguidade. São um povo que passou milênios em guerras, viu a hegemonia e a decadência, resistência e resiliência, e, quando se trata de religião e terra, dá a própria vida pela sua identidade. Acharam que seria fácil tomar o Estreito de Ormuz e viram um bombardeio pesado em todas as suas bases militares em países próximos. Ainda usando armamento da guerra dos 12 dias, a Guerra Irã-Israel em 2025, atacaram mais de 200 alvos em Israel, acabaram com o maior radar americano, com mais de cinco mil quilômetros de alcance, derrubaram um grande drone e ainda não apresentaram seu arsenal mais moderno.
Os Estados Unidos sempre colocaram a mídia a favor deles, tanto para apoiar seus ataques quanto para demonizar seus inimigos. Wesley Kanne Clark, que foi um general americano, falava que a intenção dos Estados Unidos era derrubar sete regimes para cercar a China. Afinal, os Estados Unidos estão caindo como grande império, e a China é o novo player mais importante do planeta. Para acabar com isso, derrubar a China a todo custo é prioridade. Sufocar com rotas marítimas e controle de todo o petróleo é o primeiro passo. Ele iria começar pelo Norte da África. Derrubou a Líbia, Egito, Sudão, Etiópia e Somália. Israel já é a maior base americana. Tomam a Palestina, tentam agora derrubar o Líbano, mesmo com o Hezbollah resistindo. Faz um tempo que derrubaram a Síria, invadiram o Iraque e o Kuwait. Só falta o Irã.
Trump acha que é superior ao resto da humanidade. Que os americanos são a raça escolhida por Deus. Não à toa, o pai de Trump, Fred Trump, foi membro da Ku Klux Klan. Termos até usados por Pete Hegseth, atual Secretário de Defesa dos Estados Unidos, em seu livro American Crusade: Our Fight to Stay Free (2020). Ele expressa que a “China comunista vai cair” e que a “guerra santa” é necessária para enfrentar o que ele vê como ameaças de globalismo e secularismo. Mostra a visão de cruzado que todos devem adotar: a postura de confronto cultural e militar, assim como foco na ameaça chinesa para os Estados Unidos. O recado foi dado recentemente pela China, através de Victor Gao, vice-presidente do Centro para a China e a Globalização, aos Estados Unidos: “Se você quiser destruir a China, você será destruído. Se você quiser impor uma guerra nuclear à China, você será exterminado pela guerra nuclear”.
O Irã irá lutar como pode até acabar suas munições. Os Estados Unidos deverão entrar com muita força e destruir o país. Depois devem dividir em pequenos outros países para ser mais fácil o controle, como fizeram com a Iugoslávia.
A escalada da guerra vai piorar. Enquanto Israel e Estados Unidos atingiram uma escola em Minab, no sul do Irã, deixando pelo menos 150 estudantes mortas, o Irã bombardeia Israel com mísseis cluster de fragmentação, proibidos por Genebra. Estamos entrando na cena de resignação do filme Não Olhe para Cima, onde o Dr. Randall Mindy e Kate Dibiasky, em um jantar final, aceitam que a humanidade não tem como evitar que o cometa atinja a Terra pelas decisões erradas dos líderes e que o fim é inevitável?
André Barroso
Artista plástico da escola de Belas Artes da UFRJ com curso de pós-graduação em Educação e patrimônio cultural e artístico pela UNB. Trabalhou nos jornais O Fluminense, Diário da tarde (MG), Jornal do Sol (BA), O Dia, Jornal do Brasil, Extra e Diário Lance; além do semanário pasquim e colaboração com a Folha de São Paulo e Correio Braziliense