“A condição feminina e a capacidade de amar” – Por Karla Karenina

Karla Karenina é atriz e escritora

“Mesmo que os ‘senhores das guerras’ mirem seus alvos em escolas de meninas ou provoquem a insensatez da autodestruição, seguiremos nosso destino de perpetuadoras da vida”, aponta a atriz e escritora Karla Karenina

Confira:

Historicamente, a condição feminina sempre foi marcada pelo perigo, e a raiz dessa vulnerabilidade reside, paradoxalmente, em uma forma de poder que o mundo masculino ainda teme: a capacidade de amar. O amor, aqui compreendido como gerador de vida, vínculo e cuidado, exige uma superação constante e um trabalho hercúleo de olhar para si e para o outro. Esse movimento de entrar e sair de si mesma custa caro, consumindo energia psíquica, física e um tempo que é, ao mesmo tempo, cronológico e psicológico. É uma conta que a mulher detém naturalmente — como os ciclos da lua — enquanto muitos homens, limitados em sua própria percepção, não conseguem alcançar a compreensão dos ciclos do corpo e da vida, o que nos confere uma condição especial sobre o mundo.

Essa conexão física e extrafísica com a geração da vida e da morte é, fundamentalmente, o que provoca o medo em grande parte dos homens — o pavor de perder o controle sobre as estruturas do mundo. O que deveria ser uma parceria de confiança, beneficiando a ambos, torna-se um campo de batalha. Embora existam complexidades sociais, culturais e religiosas envolvidas, a questão primordial é a mais antiga da humanidade: o poder de gerar e gerir a vida. Hoje, ser mulher torna-se ainda mais perigoso porque esse poder patriarcal tradicional está sendo desafiado. Nossa consciência coletiva agora ocupa as tribunas e os espaços digitais, tornando-se inaceitável para aqueles que sofrem de preguiça moral e baixa autoestima, resultando em reações brutais cada vez mais frequentes.

No entanto, a resistência feminina não é um fenômeno isolado no presente; ela ecoa as vozes de milhões que foram sacrificadas. As mulheres de hoje carregam no sangue e na memória os corpos daquelas que foram arrastadas, trancafiadas em conventos, silenciadas dentro das suas próprias casas, queimadas em fogueiras ou humilhadas publicamente. Somos o resultado da sobrevivência de quem fugiu da opressão e de quem teve sua inocência e fé traídas por tiranos religiosos… Continuaremos ecoando nossas vozes! Não se pode matar a alma feminina.

Sempre foi perigoso, mas sempre sobreviveremos até o fim da humanidade. Mesmo que os “senhores das guerras” mirem seus alvos em escolas de meninas ou provoquem a insensatez da autodestruição, seguiremos nosso destino de perpetuadoras da vida, gerando filhos biologicamente ou não, sustentadas pela força inabalável da palavra feminina que atravessa gerações.

Karla Karenina
Atriz e Escritora

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