“As garrafinhas sob o olhar de Freud” – Por Francisco J. Caminha

Francisco J. Caminha foi deputado estadual. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “As garrafinhas sob o olhar de Freud”, eis conto de Francisco J. Caminha, escritor e ex-deputado estadual. “Segundo a psicanálise, o primeiro estágio do desenvolvimento humano é a fase oral. É o período em que o bebê experimenta o mundo pela boca e onde o ato de sugar não é apenas nutricional, mas uma fonte primária de segurança e prazer emocional”, expõe o contista.

Confira:

Há alguns anos, sair de casa exigia três coisas básicas: carteira, celular e chaves. Hoje, há um quarto objeto indispensável que acompanha a nova liturgia urbana: a garrafinha de água.

Ela está em toda parte. Nas academias, shoppings, aeroportos, reuniões de trabalho, mesas de café, salas de aula e nas caminhadas no parque. Metálicas, térmicas, minimalistas, coloridas, personalizadas, as garrafinhas tornaram-se uma espécie de medalha portátil da vida saudável. Quem circula hoje por academias, shoppings, escritórios ou cafeterias nota um detalhe onipresente: quase ninguém mais caminha sem uma garrafinha de água à mão.

No entanto, o que chama a atenção não é apenas o objeto, mas o ritual: os pequenos goles constantes, o movimento repetitivo de levar o bocal aos lábios e a sucção quase automática.

Diante desse fenômeno, cabe a pergunta:

Seria apenas uma busca por hidratação ou haveria algo mais freudiano nesse comportamento coletivo? Se estivesse vivo, Sigmund Freud certamente teria uma teoria.

Segundo a psicanálise, o primeiro estágio do desenvolvimento humano é a fase oral. É o período em que o bebê experimenta o mundo pela boca e onde o ato de sugar não é apenas nutricional, mas uma fonte primária de segurança e prazer emocional.

Para Freud, resquícios dessa etapa manifestam-se na vida adulta através de hábitos como fumar, mascar chicletes ou o uso compulsivo de copos e canudos. Sob essa lente, a “cultura das garrafinhas” ganha um novo contorno: o que parece um hábito estritamente saudável pode ser, também, uma forma moderna e socialmente aceitável de repetir um gesto ancestral de apaziguamento oral.

Aí você me pergunta:

– Caminha de onde veio essa tua imaginação para fazer uma associação tão idiossincrática?

A fonte foi a observação dos comportamentos. Começou quando estava na cafeteria da livraria Leitura. Em frente à minha mesa notei uma mulher com cerca de quarenta anos fazendo poses para uma “selfie” enquanto manipulava o cabelo com as mãos o cabelo na busca o melhor ângulo. Entre uma foto e outra, ela se exibia segurando firmemente com mãos a roliço recipiente e, entre uma pose e outra, sugava os goles de sua garrafa cilíndrica metálica.

Na sociologia dos objetos, artefatos cotidianos frequentemente ultrapassam a função prática para se tornarem marcadores de identidade. Assim como relógios ou óculos, a garrafa comunica um estilo de vida — “fitness”, consciente, produtivo.

Mas há um aspecto simbólico que não escaparia à interpretação freudiana. Muitos objetos cilíndricos e alongados são interpretados no campo do imaginário como símbolos de potência e desejo. Nas redes sociais, onde corpos são moldados e exibidos como produtos, a garrafinha completa a coreografia da autoimagem contemporânea, segurada com firmeza em fotos de academia ou repousando estrategicamente ao lado de laptops de última geração.

O cenário da mulher na cafeteria revela um paradoxo interessante: enquanto a mão segura a garrafa, os olhos permanecem fixos na tela do celular ancorado sobre a mesa. Vivemos simultaneamente duas versões de nós mesmos: a vida real, que demanda hidratação, e a vida projetada, que demanda cliques. A cena simboliza, portanto, o encontro de dois impulsos humanos permanentes:

O Impulso Biológico/Regressivo: O corpo buscando conforto no gesto simples de beber e tocar.

O Impulso Social/Narcísico: O ego buscando validação no espelho infinito das redes sociais.

Talvez Freud sorrisse ao observar esse novo ritual. A boca, que um dia buscou o seio materno, agora encontra substitutos elegantes em garrafas térmicas de alta tecnologia.

Ao final, percebemos que a verdadeira sede do nosso tempo talvez não seja de água. Entre um gole e outro, o que buscamos saciar é uma carência mais antiga e profunda: a sede de ser visto, validado e, finalmente, de pertencer a um grupo.

*Francisco J. Caminha

Escritor e ex-deputado estadual.

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