“Desde sábado era mínima a referência à decisão. Parecia um jogo comum de calendário, não o capítulo derradeiro de um campeonato estadual”, aponta o jornalista Luiz Henrique Campos
Confira:
Já assisti muitas decisões do Campeonato Cearense de Futebol ao longo da vida. Algumas vibrantes, outras dramáticas, várias inesquecíveis. Mas a de ontem me deixou uma sensação estranha — quase como uma ressaca coletiva causada pelo rebaixamento recente dos dois da Série A do Campeonato Brasileiro. Era como se algo estivesse fora do lugar, como se faltasse aquele espírito de decisão que costuma pairar sobre um clássico dessa magnitude.
A começar pela expectativa da torcida. Nem de longe o domingo tinha clima de final. Quem vive o futebol sabe reconhecer esses sinais. As ruas mais coloridas, camisas aparecendo com mais frequência, conversas animadas em bares e esquinas. Ontem não. Aliás, desde sábado era mínima a referência à decisão. Parecia um jogo comum de calendário, não o capítulo derradeiro de um campeonato estadual.
Cheguei a conversar sobre isso com alguns amigos, torcedores fiéis, daqueles que atravessam fases boas e ruins sem abandonar o clube. A percepção era praticamente unânime.
Havia uma certa apatia no ar. Não era falta de amor pelos times, mas um tipo de desalento silencioso que o rebaixamento costuma deixar. Aquela frustração que ainda não foi totalmente digerida e que acaba contaminando até os momentos que deveriam ser de celebração.
O resultado dessa atmosfera morna apareceu de forma evidente quando se olha para o público no estádio. Basta comparar com o que aconteceu em outros estados que também tiveram finais no mesmo fim de semana. Enquanto em várias capitais as arquibancadas pulsavam, aqui o cenário foi mais contido. Nos dois jogos da decisão, a mobilização ficou aquém do que historicamente se espera quando os dois maiores clubes do estado se enfrentam por um título.
Dentro de campo, o jogo acabou entregando exatamente aquilo que já se esperava. Duas equipes com muita aplicação física, muita disputa e intensidade, mas pouca criatividade. Faltou imaginação, faltou aquele jogador capaz de quebrar linhas, de inventar algo inesperado.
Prova disso é que, tirando os dois gols da partida, praticamente nenhuma outra jogada de área fez o torcedor prender a respiração. Foram raros os momentos em que o estádio realmente se levantou da cadeira. O jogo correu mais na base da força do que da inspiração.
No fim das contas, a decisão aconteceu, o campeão foi definido e a taça encontrou dono. Mas ficou aquela sensação curiosa de que todos ainda estão tentando se recuperar de algo maior que o próprio campeonato. Como se a final tivesse sido disputada sob o efeito tardio de uma queda que ainda dói. Uma decisão com cara de ressaca do rebaixamento.
Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da Coluna Fora das 4 Linhas, no Blogdoeliomar