“Democracia sem Máscaras” – Jurandir Gurgel

Jurandir Gurgel é mestre em Economia

“O chamado caso Master revela mais do que um episódio de instabilidade financeira. Trata-se, sobretudo, de um problema de natureza político-institucional. O episódio expõe fragilidades da governança pública e evidencia os riscos que surgem quando as fronteiras entre poder econômico, influência política e responsabilidade institucional se tornam difusas”, aponta o economista Jurandir Gurgel

Confira:

Neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolheu para a Campanha da Fraternidade o tema – “Fraternidade e Moradia”. A escolha, motivada por um pedido da Pastoral da Moradia e Favela e acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB, busca despertar a solidariedade e evitar que a sociedade permaneça indiferente diante das necessidades dos irmãos e das profundas disparidades sociais.

Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade também promove o debate público e incentiva a busca por políticas públicas dignas, especialmente nas realidades em que esse direito ainda é negado.

Segundo a própria CNBB, o Brasil enfrenta um déficit habitacional de cerca de 6 milhões de moradias, somado a um déficit qualitativo de 26 milhões de residências inadequadas, muitas delas sem saneamento básico, com superlotação ou estruturas precárias. Essa realidade, entre tantas outras, evidencia um país marcado por profundas desigualdades e que clama por mudanças sociais e ações concretas capazes de garantir vida digna a todos.

Como afirmou o Papa Francisco: “Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade.”

Os dados sobre desigualdade reforçam esse diagnóstico. De acordo com o Relatório da Desigualdade Global, divulgado em dezembro de 2025 pelo World Inequality Lab, grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty, o Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda. O estudo revela que os 10% mais ricos concentram 59,1% da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 9,3%.

Diante desse cenário, essas questões tornam-se ainda mais relevantes em um ano eleitoral. A realidade das desigualdades sociais brasileiras precisa ser discutida para além das disputas partidárias e das estratégias de poder.

Nesse contexto, recordo um trecho do Hino da Cidadania, composto por José Ribeiro “Tijolo” e Antônio Camargo de Maio, cujo refrão expressa uma inquietação que ecoa no sentimento coletivo do país:

“Aonde estão os homens que têm o dever e a obrigação de fazer mudar essa realidade? Aonde estão? Eu sei que ainda existe alguém honesto, honrado e de bem, que ama o Brasil de verdade.”

A realidade social brasileira torna-se ainda mais preocupante quando nossas instituições parecem testar a paciência da sociedade. A cidadania brasileira precisa confiar em suas instituições, pois delas dependem a estabilidade da democracia e a construção de soluções duradouras para os problemas do país.

Nesse contexto, algumas questões recentes têm provocado intenso debate público. Um exemplo é o caso envolvendo o Banco Master. Segundo avaliações preliminares, não haveria risco sistêmico em uma eventual liquidação da instituição. Trata-se de um banco de porte pequeno, segundo o Banco Central, cujo conglomerado detém 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do sistema Financeiro. Sua liquidação, portanto, não representaria ameaça relevante ao sistema financeiro. Se o problema não é sistêmico, surge uma pergunta inevitável: quais são, então, as verdadeiras preocupações reveladas por esse episódio?

O chamado caso Master revela mais do que um episódio de instabilidade financeira. Trata-se, sobretudo, de um problema de natureza político-institucional. O episódio expõe fragilidades da governança pública e evidencia os riscos que surgem quando as fronteiras entre poder econômico, influência política e responsabilidade institucional se tornam difusas.

A ética pública, afinal, não se resume ao cumprimento formal da lei; ela depende, sobretudo, da preservação da confiança da sociedade nas instituições.

As novas revelações da Operação Compliance Zero, a partir de dados extraídos do celular do dono do extinto banco, indicam que o alcance do caso ultrapassa os problemas técnicos inicialmente apontados pelo Banco Central – como falta de liquidez, alavancagem excessiva ou ativos sobrevalorizados. Os indícios sugerem conexões sensíveis com figuras relevantes da política e do sistema de justiça, ampliando a gravidade do episódio.

Nesse contexto, o episódio deixa de ser apenas uma liquidação bancária e passa a apresentar indícios de um arranjo mais amplo, possivelmente associado a práticas criminosas. Não por acaso, a Polícia Federal voltou a solicitar a prisão do investigado, diante de evidências de atuação reiterada na ocultação de recursos e na articulação com agentes públicos. Esse cenário aumenta a preocupação no meio político-institucional quanto aos desdobramentos do caso, sobretudo diante do potencial impacto que uma eventual delação premiada pode provocar.

É nesse ambiente de tensões institucionais que a metáfora da ópera “Um Baile de Máscaras”, de Giuseppe Verdi, torna-se particularmente reveladora. Na obra, personagens transitam entre conspirações, lealdades frágeis e intenções ocultas até que, no baile final, todos estão mascarados – e é justamente nesse momento que a verdade emerge.

Em um Estado Democrático de Direito, máscaras não podem substituir a verdade. A sociedade – que financia o funcionamento do Estado por meio do orçamento público – tem o direito de exigir transparência, responsabilização e o pleno esclarecimento dos fatos.

Na vida político-institucional contemporânea, algo semelhante ocorre. Muitas vezes, rituais institucionais, discursos públicos e narrativas cuidadosamente construídas funcionam como máscaras que ocultam interesses, estratégias e disputas de poder.

A democracia, porém, depende menos dessas encenações formais e mais da confiança que nasce da transparência, da responsabilidade pública e da coerência entre discurso e prática. A despeito das fragilidades que nossa democracia possa apresentar, a cura é mais democracia.

Talvez por isso a lição implícita da ópera seja tão atual: quando as máscaras se tornam permanentes, a tragédia institucional deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a rondar o próprio destino da vida pública.

Por fim, vale lembrar que este ano eleitoral também coincide com a Copa do Mundo de futebol. Arrisco dizer que as eleições se assemelham a uma verdadeira Copa da democracia. A sociedade entra em campo como uma grande torcida, movida pela esperança de ver surgir um time capaz de representar seus sonhos e suas necessidades.

Os candidatos são as equipes que disputam a confiança do povo. No entanto, o verdadeiro adversário não está do outro lado do campo: são as desigualdades sociais, a pobreza e a falta de oportunidades.

Por isso, o que a sociedade espera não é apenas um time que vença a eleição, mas um time que jogue com decência, respeito e espírito coletivo, comprometido em transformar o resultado do jogo em dignidade para todos.

Quando a política joga pelo bem comum, sem máscaras, a vitória não é de um partido ou de um grupo – é de toda a sociedade.

Jurandir Gurgel
Mestre em Economia, membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF
jggondim@terra.com.br

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