Com o título “A Corrupção Sistêmica e o Fim da Era Petista”, eis o título de artigo assinado e da responsabilidade de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.
Confira:
O recente anúncio de um reajuste de 11,3% no preço do diesel é apenas o primeiro de uma série de aumentos que deverão atingir os combustíveis nos próximos meses, produzindo efeitos diretos sobre o custo de vida da população brasileira. A justificativa oficial, segundo a qual o aumento decorreria da instabilidade no Irã e em outras regiões do Oriente Médio, soa como um escárnio diante da história recente do Ceará. Por mais que os petistas insistam nessa narrativa, não será possível atribuir à guerra a responsabilidade por aumentos que têm raízes em opções políticas e administrativas criminosas.
Se as promessas de construção das refinarias do Ceará, do Maranhão e do Rio de Janeiro tivessem sido efetivamente cumpridas durante os governos petistas, o Brasil não estaria hoje tão vulnerável às oscilações do mercado internacional de petróleo. Ao contrário: o país estaria exportando combustíveis com elevado valor agregado, fortalecendo sua balança comercial e garantindo maior estabilidade interna nos preços. Em vez disso, continuamos reféns de oscilações externas que penalizam diretamente o bolso do consumidor brasileiro.
No Ceará, o sonho de sediar uma refinaria da Petrobras remonta aos anos 1980, ainda durante o primeiro governo de Tasso Jereissati, quando o Estado disputou, sem sucesso, a instalação de uma unidade que acabou destinada a Pernambuco. A derrota, contudo, não apagou a expectativa de que um dia o Ceará viesse a ocupar lugar estratégico na cadeia de refino nacional. Foi no primeiro mandato do governador Cid Gomes (2007–2010) que essa esperança voltou a ganhar impulso político concreto. O projeto da Refinaria previa sua instalação no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, transformando o Estado em um importante polo energético.
Em 20 de agosto de 2008, com ampla divulgação na mídia local, foi anunciado o ato que prometia transformar profundamente o perfil socioeconômico do Ceará: a formalização do projeto da Refinaria Premium II. O protocolo de intenções foi assinado pelo então presidente Lula, pelo governador Cid Gomes e pelo presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli. Ela seria moderna, voltada à produção de combustíveis de alta qualidade, com foco no abastecimento regional e na exportação.
O entusiasmo atingiu seu ápice em dezembro de 2010, nos últimos dias do governo Lula, quando foi lançada a pedra fundamental da refinaria no Pecém. Naquele momento, o clima era de euforia. Falava-se em investimentos superiores a 11 bilhões de dólares e na criação de cerca de 90 mil empregos diretos e indiretos. Para muitos cearenses, tratava-se do maior projeto industrial da história do Estado, capaz de redefinir sua posição econômica no cenário nacional.
Confiando nas promessas do governo federal, o governador Cid Gomes mobilizou recursos públicos expressivos para viabilizar a implantação do empreendimento. Centenas de hectares de terras foram adquiridos, obras de terraplenagem foram executadas e toda uma infraestrutura inicial começou a ser preparada no entorno do Complexo do Pecém. O Ceará se preparava para receber aquilo que lhe fora apresentado como um marco de desenvolvimento histórico.
Entretanto, enquanto discursos grandiosos eram proferidos em palanques e cerimônias oficiais, a realidade seguia outro rumo. Escândalos sucessivos de corrupção começaram a corroer a credibilidade das instituições e a comprometer projetos estratégicos da Petrobras. Gradualmente, as refinarias prometidas desapareceram da agenda nacional. Em 2015, já no governo Dilma Rousseff, a estatal anunciou oficialmente o cancelamento das refinarias. Para a perplexidade e frustração da população, veio à tona que bilhões de dólares vinculados a grandes projetos da empresa foram desviados por esquemas de corrupção investigados pela Operação Lava Jato.
Passadas quase duas décadas de governos petistas, o Nordeste continua aguardando a concretização de grandes obras estruturantes anunciadas com estardalhaço político. No caso do Ceará, restaram apenas o terreno preparado para uma refinaria que nunca saiu do papel, a transposição do rio São Francisco ainda incompleta em diversos trechos e a ferrovia Transnordestina, cuja conclusão permanece envolta em incertezas. Tais projetos tornaram-se símbolos eloquentes de promessas grandiosas que se dissiparam diante da incompetência administrativa e da corrupção sistêmica do governo petista.
Paralelamente a esse cenário de frustração econômica, a República brasileira vive um período de acentuada tensão institucional. Analistas políticos de diferentes correntes já apontam que o país atravessa uma das mais graves crises desde a redemocratização. O delicado equilíbrio entre os Poderes da República, fundamento normativo da Constituição de 1988, apresenta sinais evidentes de desgaste. O sistema de freios e contrapesos, concebido para conter excessos e preservar a harmonia entre as instituições, enfrenta questionamentos crescentes diante da percepção de protagonismo político do Judiciário sobre atribuições tradicionalmente pertencentes ao Legislativo e ao Executivo.
Nesse ambiente de incerteza institucional, o governo do presidente Lula enfrenta um processo acelerado de erosão de legitimidade. Denúncias recorrentes de corrupção, envolvendo figuras centrais do sistema político e integrantes de diferentes esferas do poder, alimentam a percepção pública de que a crise ultrapassa disputas partidárias e atinge o próprio funcionamento das instituições republicanas.
Diante desse cenário, cresce entre diversos setores da sociedade a convicção de que o sistema político brasileiro se aproxima de um ponto de inflexão. O desgaste acumulado ao longo de sucessivos escândalos e a frustração diante de promessas reiteradamente descumpridas alimentam a expectativa de uma mudança de ciclo histórico.
E há algo aterrorizando os gabinetes da velha República. A prisão e a futura delação de Vorcaro prometem derreter parte expressiva do establishment dos três poderes, enterrando no lixo da história essa bandidagem que inferniza a vida dos brasileiros.
*João Arruda,
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.
Uma resposta
Ridículo o texto. O sóciologo deve esta louco para a permanência do centrão e a extrema direira no Brasil..