“A loura guerreira está viva!” – Por Valdélio Muniz

Valdélio Muniz é jornalista. Foto: Divulgação

“A saída da deputada não significa, nem de longe, ingratidão à legenda que, por 37 anos, lhe deu abrigo. O PT também se beneficiou”, aponta o jornalista Valdélio Muniz

Confira:

Uma das personagens mais marcantes da política cearense acaba de anunciar o que, para alguns, pode parecer uma guinada surpreendente, mas, em verdade, é um ato de coragem, desprendimento e coerência. A desfiliação da deputada federal Luizianne Lins do PT, formalizada nesta quinta-feira (2/4), é o marco do reencontro de uma guerreira consigo mesma e, mais do que isso, de fidelidade aos seus seguidores e de atendimento aos anseios e expectativas de uma legião de eleitores que, até então, encontravam-se completamente órfãos e sem opção concreta para a disputa ao Senado.

Sim, abrir mão de uma reeleição praticamente garantida à Câmara dos Deputados requer desapego às mordomias de um mandato parlamentar e, no seu caso, de uma importante tribuna para defesa de causas sociais como a educação, a diversidade e os direitos humanos. Optar por uma estrutura partidária ainda muito pequena como a da Federação Rede Sustentabilidade e Partido do Socialismo e da Liberdade (Rede/PSOL) expõe a clara e correta convicção de que, mais importante, é estar onde se é valorizada e se pode continuar defendendo as mesmas bandeiras que marcam a sua trajetória.

Destaco: a saída da deputada não significa, nem de longe, ingratidão à legenda que, por 37 anos, lhe deu abrigo. O PT também se beneficiou, sim, da sua militância, das suas realizações administrativas (sobretudo voltadas à educação e à periferia da Cidade, a contragosto de uma elite que acha que apenas áreas nobres da cidade e as suas demandas devam ser atendidas) como prefeita de Fortaleza (2005-2008 e 2009-2012) e de sua atuação nos Legislativos por onde passou (Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Câmara dos Deputados). Mas, se ao longo do tempo, os interesses, as alianças e prioridades da legenda mudaram, não se pode exigir que ela precise mudar também para nele permanecer.

Em muitos campos da vida, a regra lógica que todos costumam repetir é a de que “os incomodados que se retirem”. Foi o que ela fez no momento em que julgou adequado. Sim, afinal de contas, ela persistiu (por motivos diversos, inclusive a importância do alinhamento e apoio do Governo federal, creio eu, à sua gestão municipal) no partido mesmo num momento de claro desgaste sofrido pela legenda como foi o chamado mensalão (2005), quando muitos dos seus aliados (e amigos) mais próximos (como os valorosos João Alfredo e Renato Roseno) partiram para o PSol.

Portanto, o reencontro com seus antigos companheiros há de ser, sim, um reencontro consigo mesma e não uma guinada ideológica incoerente, como tantas que a gente vê e que parecem normalizadas, como trocar, de uma hora para outra, um Partido Liberal (PL) por um Partido Socialista Brasileiro (PSB) e repentinamente se tornar irmão (ou, no jargão mais jovial, “mano”) daqueles que, até então, eram, a rigor, adversários e ferrenhos opositores.

Lembro de Luizianne antes mesmo de conhecê-la pessoalmente, ao vê-la na televisão atuando como líder estudantil (ela foi presidente do Centro Acadêmico do Curso de Comunicação Social e do Diretório Central dos Estudantes-DCE da Universidade Federal do Ceará-UFC) em protesto contra a nomeação de um ex-reitor nomeado sem a preferência real de professores, estudantes e servidores da UFC.

Posteriormente, fui seu aluno no mesmo Curso de Comunicação Social e assisti à sua primeira eleição como vereadora (1996) da Capital, sua reeleição com quase o dobro de votos, em 2000, sua vitória na disputa por uma vaga de deputada estadual (em 2002) e sua emocionante conquista do primeiro mandato de prefeita (em 2004), contra muitos do seu próprio entorno partidário, mas movida pela garra que contagiou o eleitorado e fez mostrar a quem deve, de fato, pertencer o poder e que a reconduziu em 2008.

Há tempos assistindo-a à distância, fico feliz de ver que, entre erros e acertos (próprios de quem é, acima de tudo, humano), ela não desiste da vida política, mesmo (e principalmente) ciente da misoginia que, sim, em pleno século XXI, ainda é visível também nesse meio. Retornou ao Parlamento em sucessivas eleições à Câmara dos Deputados e tem, portanto, legítimo direito de pleitear uma vaga no Senado.

Uma história desse porte não se cala facilmente.

Valdélio Muniz
Jornalista. Analista Judiciário. Mestre em Direito Privado. Professor de Processo do Trabalho. E-mail: valdsm@uol.com.br

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