“Beato José Lourenço, o herói camponês que o Ceará se nega a reconhecer” – Por Flamínio Araripe

Flamínio Araripe é jornalista e pesquisador. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o titulo “Beato José Lourenço, o herói camponês que o Ceará se nega a reconhecer”, eis artigo de Flamínio Araripe jornalista e pesquisador.

Confira:

O Ceará tem uma dívida histórica com José Lourenço Gomes da Silva, o paraibano filho de negros alforriados que se tornou o beato José Lourenço. Nascido em 22 de janeiro de 1872 e falecido em 12 de fevereiro de 1946, ele liderou uma das experiências mais profundas de vida comunitária no sertão nordestino em terras de Monte Alverne, distrito do Crato.

Em 1926, o beato iniciou a implantação da Comunidade do Caldeirão. Liderou a organização de uma fazenda na zona rural do Crato, sob o modo de produção coletivista, que transformou o solo do semiárido em um vilarejo próspero. No entanto, sua trajetória de paz foi interrompida pela violência estatal da Ditadura Vargas, que em 1937 o espoliou de
tudo o que fora construído pelo suor do povo.

A figura do beato José Lourenço emerge como a de um líder de moral ilibada, trabalhador e profundamente solidário, que acolhia os flagelados da seca nas horas mais difíceis. No Caldeirão, ele estabeleceu um sistema de “rezando e trabalhando”, onde a fraternidade era a regra.

A comunidade não apenas era autossuficiente, produzia de cereais a cana-de-açúcar, como servia de refúgio para milhares de flagelados das secas, a quem o beato socorria sem exigir contrapartidas. Esse “preto de largo coração” provou que era possível construir uma sociedade sem classes e sem opressão em pleno Cariri cearense.

Polícia que difama, mata, persegue e rouba

Contudo, a prosperidade e a independência do Caldeirão despertaram a cobiça e o medo das elites locais. Após a morte do Padre Cícero, em 1934, iniciou-se uma implacável campanha de difamação. O líder político e religioso de Juazeiro do Norte, que assegurava a permanência do beato em suas terras de Monte Alverne, legou sua propriedade aos padres salesianos, em testamento. A ganância pelo patrimônio ditou os acontecimentos.

O beato foi falsamente acusado de fanatismo, de manter um harém e, sob o clima da Intentona de 1935, de ser um “agente comunista”; subversivo. Essas mentiras serviram de pretexto para que as forças policiais desencadeassem uma perseguição sistemática contra o líder pacifista.

O roubo perpetrado contra a comunidade foi de proporções monumentais, constituindo uma verdadeira fortuna para a época. Registros judiciais revelam a “pilhagem de centenas de animais”, oficinas completas de ferreiro e sapateiro, além de bens valiosos como relógios Patek Philippe e joias de ouro de lei. Toda essa riqueza, fruto do trabalho coletivo, foi expropriada pela polícia sem qualquer indenização ou base legal, deixando os camponeses na mais absoluta miséria.

Nesse cenário de injustiça, poucos ousaram levantar a voz em defesa do beato. O advogado Antônio de Alencar Araripe e o ex-prefeito do Crato, José Alves de Figueiredo, foram figuras raras que prestaram solidariedade. Por defenderem o direito de José Lourenço às suas terras, ambos foram presos sem base legal e acusados de conspiração para depor o governo. Ambos foram detidos no município e levados de trem a Fortaleza sob custódia policial.

A destruição final do Caldeirão foi um dos episódios mais sombrios da história brasileira, frequentemente comparado ao massacre de Canudos. Em maio de 1937, tropas policiais, apoiadas por bombardeios aéreos, dizimaram a comunidade remanescente. Estima-se que entre 700 a 1.000 camponeses tenham sido assassinados. José Lourenço conseguiu escapar, refugiando-se no sítio da família de Luiz Gonzaga, em Pernambuco, onde viveu seus últimos anos antes de ser sepultado em Juazeiro do Norte.

Filme de 40 anos celebra Centenário do Caldeirão no festival “É Tudo Verdade”

O resgate dessa “história amordaçada” deve muito ao cinema. O documentário “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, dirigido por Rosemberg Cariry em 1986, foi fundamental para desenterrar os fatos e dar voz aos remanescentes. Baseado no livro homônimo, o filme rompeu o silêncio imposto pelas versões oficiais e mostrou que a utopia do beato era, na verdade, um projeto de justiça social e dignidade humana.

Em 2026, o Ceará que honra esta memória tem a celebrar um marco duplo: o Centenário do Caldeirão e os 40 anos da produção do documentário de Cariry. A exibição da cópia restaurada do filme no festival “É Tudo Verdade” é um passo simbólico importante, mas insuficiente para quitar a dívida do Estado. É preciso que a memória de José Lourenço seja integrada oficialmente à identidade cearense, não mais como a de um “fanático”, mas como a de um pioneiro da reforma agrária e da vida comunitária.

Defende-se, portanto, a tese de que José Lourenço foi um Herói da História Popular. Sua capacidade de liderança, sua resistência pacífica contra o terrorismo ideológico e seu compromisso com os mais pobres conferem a ele um lugar legítimo no panteão dos grandes nomes da vida pública. Ele personifica a luta da sociedade campesina contra o latifúndio opressor e a violência estatal, sendo um símbolo de esperança para as futuras gerações.

Reconhecer José Lourenço é um ato de reparação histórica necessária para o Ceará. Que em 2026, as celebrações do centenário sirvam para consolidar seu nome entre as maiores lideranças que já caminharam pelo solo caririense. A história do Caldeirão não é apenas um registro de dor, mas um combustível para a crença de que a igualdade e a justiça social são possíveis, mesmo diante das maiores adversidades.

SERVIÇO

Cópia remasterizada do filme “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” será exibida no Festival Internacional de documentário “É Tudo Verdade”- de 9 a 19 de abril, nas salas de cinema do Rio de Janeiro e São Paulo.

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