A literatura nem sempre começa com uma frase. Às vezes, ela nasce de um traço.
Foi partindo dessa provocação que conduzi um dos episódios mais instigantes do Cafezim com Literatura, ao reunir a quadrinista Débora Santos e o designer editorial Daniel Firmino para uma conversa que atravessa linguagens, tensiona conceitos e amplia o que entendemos por narrativa.

Porque, afinal, o que é literatura hoje?
Se por muito tempo estivemos condicionados à palavra escrita como território exclusivo da literatura, o encontro com artistas visuais escancara uma verdade cada vez mais evidente: há histórias sendo contadas — e muito bem contadas — nas entrelinhas do desenho, na escolha de uma cor, na pausa de uma página em branco.
Débora Santos, com sua trajetória que atravessa a sociologia antes de chegar aos quadrinhos, é prova disso. Seu trabalho não apenas narra, mas investiga. Ao adaptar Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ela rompe com o imaginário árido e monocromático do sertão e propõe uma leitura visual que pulsa vida — com cores, contrastes e nuances que também contam história. Em Gringo Love, transforma pesquisa antropológica em narrativa gráfica, mostrando que o quadrinho pode ser, inclusive, ferramenta de reflexão acadêmica.
Daniel Firmino, por sua vez, nos lembra que o livro, antes de ser lido, é visto — e sentido. Em tempos de automatização e respostas instantâneas, ele aposta na contramão: desenha tipografias à mão, experimenta formatos, convida o leitor ao toque. Seu trabalho desloca o livro do lugar de objeto utilitário para o campo da experiência estética.
E talvez seja justamente aí que mora o ponto central dessa conversa: literatura também é forma.
Não apenas o que se conta, mas como se conta. E, nesse “como”, cabem muitas linguagens — inclusive aquelas que não dependem exclusivamente da palavra.
Ao longo do episódio, uma questão inevitável surge: histórias em quadrinhos são literatura? A resposta, longe de ser definitiva, aponta para um caminho mais interessante do que qualquer rótulo — o de entender que as HQs possuem uma linguagem própria, onde texto e imagem não competem, mas se completam. E, muitas vezes, é o silêncio entre um quadro e outro que diz mais do que qualquer parágrafo.
Chegar a mais de quinze episódios do Cafezim com Literatura também me faz olhar para trás com certo orgulho: foram muitos encontros, muitas vozes, muitos recortes possíveis da literatura — sempre tentando expandir esse conceito, aproximar públicos e valorizar a produção cearense. O podcast nasceu desse desejo de escuta e troca, e se fortalece a cada episódio como um espaço de circulação de ideias.
Este, em especial, deixa um convite importante: repensar a literatura para além das páginas convencionais.
Da Sociologia aos Quadrinhos: A Trajetória de Débora Santos
A jornada artística de Débora Santos começou de forma pouco convencional: nas Ciências Sociais. A artista conta que, embora tenha abandonado o curso para mergulhar nas artes visuais, a sociologia foi essencial para sua formação cidadã, ajudando-a a entender sua realidade, privilégios e localização geopolítica na América Latina.
Essa base acadêmica foi crucial em obras como Gringo Love. O quadrinho é uma adaptação dos diários de campo da antropóloga Marie, que estudou o turismo sexual na praia de Ponta Negra, em Natal. A HQ faz parte de uma linha editorial chamada etnographics (etnografias gráficas) e é utilizada como recurso metodológico em salas de aula para refletir sobre a pesquisa antropológica.
Débora também brilhou com a adaptação em quadrinhos do clássico Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Fugindo do clichê de retratar o sertão em preto e branco ou tons de sépia, ela optou por cores fortes e céus azuis para demonstrar a sazonalidade do bioma da caatinga. A inovação rendeu à artista o cobiçado Troféu HQ Mix na categoria Novo Talento Desenhista.
O Livro como Obra de Arte: A Visão de Daniel Firmino
Para o designer editorial e ilustrador Daniel Firmino, a relação com os livros começou na infância, como um leitor ávido. Hoje, atuando principalmente na Substância Editora, Daniel defende que o processo de criação de um livro vai muito além do escritor, englobando capistas, diagramadores e ilustradores.
O grande diferencial do trabalho de Daniel é a paixão pela manualidade. Ele prefere afastar-se do computador para criar usando papéis, pincéis, tintas e desenhando tipografias à mão. Obras como Hipomeias e O Verso Desdobra o Tempo exemplificam essa dedicação ao design artesanal e aos formatos não convencionais, permitindo que os leitores interajam com os livros fisicamente, desdobrando páginas e brincando com a poesia visual. Além da estética, Daniel destaca a importância da acessibilidade no design, pensando no tamanho da fonte e em áreas de respiro adequadas para a leitura.
Literatura, Quadrinhos e o Mercado de Trabalho
Uma discussão interessante levantada no episódio foi se história em quadrinhos é literatura.
Débora explica que as HQs abrigam gêneros literários variados, como ação, autobiografia e filosofia, mas possuem uma linguagem própria focada na visualidade. Em adaptações, por exemplo, a transposição excessiva de textos em prosa pode tornar a leitura travada; a fluidez nos quadrinhos depende de focar nas expressões corporais e faciais dos personagens.
Sobre o mercado, o cenário é de crescimento, impulsionado por editais e novos equipamentos culturais no Ceará. Contudo, Débora ressalta que o nicho de quadrinhos ainda exige que os artistas tenham segundas e terceiras fontes de renda, como trabalhos em animação e venda de produtos em feiras.
A Polêmica da Inteligência Artificial (IA)
Quando o assunto é o uso de Inteligência Artificial na arte, os convidados foram categóricos: não apoiam. Tanto Débora quanto Daniel são enfáticos ao defender o valor da manualidade, do gesto, do tempo investido na criação. Em um cenário onde tudo pode ser gerado em segundos, o fazer artístico se torna também um posicionamento ético. Por valorizarem o artesanato e a manualidade da profissão, Débora e Daniel apontaram sérias questões éticas na IA, que utiliza bancos de dados com trabalhos de artistas reais sem a devida autorização ou remuneração. Eles argumentam que a tecnologia banaliza o esforço exaustivo envolvido na criação visual e defendem a necessidade urgente de regulamentação de direitos autorais.
Se você também acredita que histórias podem habitar outros formatos — e que a arte está, muitas vezes, nas entrelinhas — vale a pena conferir essa conversa na íntegra.
As histórias não estão confinadas apenas às palavras escritas; muitas vezes, elas ganham vida e respiram através do traço de artistas que transformam criatividade em artes visuais.
O episódio está disponível no YouTube e nas plataformas de áudio. É só procurar Cafezim com Literatura.
E garanto: depois dele, talvez você nunca mais olhe para um livro (ou para um quadrinho) da mesma forma.