“A (à) minha Fortaleza” – Por João Alfredo

João Alfredo é o titular do Idace. Foto: PSOL

“Uma pequena declaração de amor a esta cidade tão bela quanto injusta, tão insubmissa quanto conservadora, em seus 300 anos”, aponta o advogado João Alfredo

Confira:

A minha Fortaleza é o Poço da Draga, nossa mais antiga comunidade, enfeitada com as bandeirinhas de São João.

A minha Fortaleza são as longarinas da Ponte Velha que ainda não caiu (faz muito tempo que eu não vejo..) nos pungentes versos de Ednardo.

A minha Fortaleza é o Passeio Público, praça dos Mártires confederados do Equador; é minha netinha sentada à sombra do centenário baobá (Salve Bárbara, Tristão e todos os revolucionários!).

A minha Fortaleza é o Cocó e a Sabiaguaba, suas dunas, mangues e rios e seus povos tradicionais de pescadores da Boca da Barra e da Casa de Farinha, guardiões da natureza e da ancestralidade.

A minha Fortaleza é a Praça dos Leões, com sua Igreja do Rosário dos Pretos, o Palácio da Luz (abaixo a oligarquia aciolina!), o Museu do Ceará e o carnaval das Gata Pira.

A minha Fortaleza é a procissão de São Pedro dos pescadores e de sua igrejinha (saudades da Olga Paiva!), que ainda resiste em meio à selva de arranhas-céus da Beira Mar.

A minha Fortaleza são as velas do Mucuripe, de Ednardo e Belchior, e que levam a Rainha do (ao) mar, celebrada com flores, canções e tambores.
A minha Fortaleza é o povo lutador da Marcha do Pirambu e da Praia do Titanzinho, do Lagamar e da Vila Vicentina, de tantas comunidades que arrancaram do capital imobiliário o direito de ter o seu chão e moradia.

A minha Fortaleza é o lindo Teatro José de Alencar e os jardins de Burle Marx; é o corpo de Osvald Barroso, já encantado, sendo ali velado pelas pajés Pitaguary.

A minha Fortaleza é o pôr do sol na Barra do Ceará, do hidroporto e do Forte de Santiago que não existem mais, do rio e do manguezal do povo Tapeba.
A minha Fortaleza é o patrimônio que insiste em não tombar, o casario do Dragão do Mar e da Praia de Iracema, o Seminário da Prainha (e de Padre Cícero), a Estação João Felipe, as igrejas do Carmo e da Parangaba, os solares da Jacarecanga e da Gentilandia, o Estoril (Vila Morena) e a casa de José de Alencar.

A minha Fortaleza é povo alegre e rebelde nas ruas, suas bandeiras encarnadas, suas ondas vermelhas que levaram marias, luizas e luizianes ao Palácio do Bispo.

A minha Fortaleza é o Benfica, suas faculdades e seus carnavais, o Sanatório Geral e o Luxo da Aldeia, os cordões e os blocos e os maracatus.

A minha Fortaleza é a Praça do (Boticário) Ferreira, da Farmácia Osvaldo Cruz, da Coluna da Hora e do povo ali abancado que deu aquela solene vaia para o sol, quando apareceu após dias de muita chuva.

A minha Fortaleza são minhas lembranças mais antigas, o banho nas pedras da Praia do Ideal, o passeio de charretinha na praça do Aeroporto velho, o almoço aos domingos no Caravele, o Caldo de Cana no Leão do Sul, os filmes do Rin-tin-tin no São Luiz, as brincadeiras na Cidade da Criança, a passagem do corso na D. Manuel, os livros subversivos dos primos mais velhos e o doce de ambrosia da Vovó Clotilde.

A minha Fortaleza é seu povo, sua natureza e sua cultura que ainda resistem, é a briga da memória contra o esquecimento, da esperança contra o desânimo, dos que ainda querem uma cidade bela, justa e humana.

João Alfredo Telles Melo
Advogado e superintendente do Idace

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias