Com o título “Nos vestígios da saudade”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “Minha memória afetiva se apropriou do rádio de pilha semelhante ao que embalava as noites escuras da infância em Saboeiro, na casa do avô Manoelito. O passado está presente”, expõe a articulista.
Confira:
A saudade, contida por tanto tempo, trouxe-me de volta a uma realidade que eu julgava esquecida. Ao visitar, de forma on-line, o museu que meu tio Robério criou na cidade de Assaré, fui atravessada por um sentimento de pertencimento, que percorreu o pensamento e desaguou no coração, revelando a urgência de recolher meus vestígios, minhas sobras.
Ao longo de décadas, garimpando pelo sertão cearense, nas casas de parentes, amigos e desconhecidos que abriram suas portas e tesouros, tio Robério foi resgatando a memória daquela gente simples e as lembranças da infância e adolescência que teimam em se apoderar de seu ser. Percorro aqueles objetos e me dou conta de que eles ali estão
contando histórias, a minha história.
Lá está minha antiga máquina de escrever Olivetti, companheira de desafios quixotescos pelos sertões para contar histórias e fatos do dia a dia. É quixotesco mesmo. Embrenhávamo-nos no mato, subíamos serrotes, descíamos ribanceiras à procura de riachos, famílias isoladas, gente sofrida.
Cortávamos estradas e veredas para falar da fome e sede nos tempos de seca braba; corríamos léguas em estradas carroçáveis para nos defrontar com enchentes e desabrigados. E por aí vai: invasões de terras; políticos prometendo mundos e fundos em período eleitoral; abalos sísmicos, sonhos interrompidos pela violência, trabalho escravo, corrupção etc.
Presente de meu pai, o objeto desapareceu de casa. Só agora descubro que minha mãe, no ato de desprendimento, deu a velha máquina ao cunhado, acreditando que estaria segura. “Não se perderia”, argumentou ao ser questionada sobre o feito.
Minha memória afetiva se apropriou do rádio de pilha semelhante ao que embalava as noites escuras da infância em Saboeiro, na casa do avô Manoelito. O passado está presente.
Voltam as imagens da menina franzina correndo entre os cômodos da casa centenária dos avós ou desafiando o medo de altura ao se debruçar em uma das janelas do casarão onde vivia com os pais e irmãos para apreciar, lá do alto, o movimento no mercado público e na praça da igreja.
As imagens se entrelaçam a tantos outros vestígios — fotografias de família e objetos do Cartório Nocrato, administrado por meu pai e por uma tia. Por cinquenta anos, eles viveram as lutas e vitórias de Aiuaba , ajudando a registrar e contar a história de um povo.
As vivências estão emolduradas nos mais belos sentimentos. Pessoas queridas voltam do passado para gritar o seu presente e brincar de esconde-esconde na busca do futuro.
*Suzete Nocrato
Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.