“Hoje, o turismo nas favelas gera renda para muitos moradores que resistem e não foram expulsos dos territórios”, aponta a jornalista Mônica Rodrigues
Confira:
O filme “Michael”, cinebiografia de Michael Jackson, entrou em cartaz neste feriado e um clipe do Rei do Pop voltou a tomar conta das redes socais: o da música “They don’t care about us”, na favela Santa Marta, na zona sul do Rio de Janeiro, e no Pelourinho, dirigido pelo cineasta Spike Lee no final dos anos 90.
Alguns dias antes de o filme estrear, um episódio voltou a ser notícia no Rio: no alto do ponto turístico do morro Dois Irmãos, no Leblon, a poucos quilômetros da Santa Marta, a imagem de 200 turistas “ilhados” no alto do morro ganhou o mundo por causa de confronto entre policiais e traficantes, no qual as forças de segurança tentavam capturar um traficante foragido da Bahia, na favela do Vidigal.
Visitantes ficaram sem poder descer devido ao tiroteio. A trilha sem sinalização nem segurança, e com turistas apinhados, alguns em desespero, outros viralizando nas redes sociais e filmando a troca de tiros. Esse é o retrato de parte do turismo da vida real no Rio, desprovido de apoio do poder público.
O fato é que, hoje, turismo nas favelas não existe só na Zona Sul e gera renda para muitos moradores que resistem e não foram expulsos dos territórios quando houve a gentrificação das terras, com a especulação imobiliária aumentando o preço das casas e barracos.
Se esse turismo “não existe”, o governo do estado e a Prefeitura se sentem desobrigados a garantir a segurança e providenciar a sinalização e suporte adequado das trilhas. Já passou da hora de o assunto ser tratado o cuidado que merece.
Depois que Michael Jackson dançou na laje do ambulatório comunitário de Dedé, na favela Santa Marta, há quase três décadas, aquele território nunca mais foi o mesmo. A favela se transformaria em seguida em lugar de visitação turística, independentemente da vontade do poder público, e permanece sem nenhum apoio, porque o senso comum e as autoridades acreditam, nessa hora, que favela não é lugar de se fazer turismo.
Os moradores só veriam isso mudar, na Santa Marta, quase dez depois, em 2010, ao receberem o primeiro projeto de política pública para o turismo em favela com o slogan “O Rio de Janeiro sob novo ponto de vista”.
Especialista em educação, gestão do turismo e estudos do cenário brasileiro há quase duas décadas, a diretora do Centro de Excelência do Turismo, da Universidade de Brasília, professora Marutschka Moesch defende em livro que um outro turismo é possível, menos discriminatório e mais inclusivo.
Desde o ano passado, ela se dedica, junto com o Ministério do Turismo, a desenhar o projeto de criação de uma Escola Popular de Turismo no Brasil, justamente para contemplar e incluir aqueles para os quais, como no clipe do Michael Jackson, ninguém liga. O projeto é ambicioso e leva na bagagem 13 anos de estudos sobre o motivo de o turismo no Brasil promover tantos cursos técnicos, mas ser considerado pouco qualificado pelos visitantes e também pelo trade turístico.
O projeto, que divide o Brasil em cinco regiões, vai apostar no protagonismo popular autêntico e empreendedor e no turismo de base comunitária, dependendo agora que alguém o tire do papel para lançar a primeira Escola. A parte pedagógica será diferenciada por regiões e terá como objetivo sair do tecnicismo que produz apenas funcionários para trabalharem na rede hoteleira, além de bares e restaurantes. O projeto busca formar moradores das regiões como protagonistas desse turismo, com uma metodologia que respeita as regras do negócio turístico, mas que também preserva as características dos territórios, sua riqueza e diversidade.
Mônica Rodrigues
Jornalista e Doutora em Políticas Públicas