“Lula e o dilema da percepção econômica” – Por Cleyton Monte

Cleyton Monte é cientista político e pesquisador. Foto: Arquivo Pessoal.

“A economia melhora nos indicadores, mas não na experiência cotidiana”, aponta p cientista político Cleyton Monte

Confira:

O governo Lula opera sob uma aposta clássica: a de que a melhora das condições econômicas pode reordenar o ambiente político. A estratégia combina expansão de crédito e estímulos ao consumo, buscando produzir efeitos concretos no curto prazo e, a partir deles, influenciar a percepção social.

O problema é que essa equação já não opera de forma linear. O Brasil registra uma taxa de desemprego de 5,8%, patamar próximo ao pleno emprego, mas esse dado convive com um nível recorde de endividamento: 80,4% das famílias possuem dívidas. Além disso, cerca de 29,6% estão inadimplentes e 12,3% afirmam não ter condições de pagar seus débitos. A renda existe, mas está comprometida — capturada por passivos acumulados.

Esse quadro altera qualitativamente a relação entre economia e política. O emprego cresce, mas não se traduz em sensação de melhora. A combinação entre renda limitada e crédito caro — com juros ainda elevados — produz um efeito de aprisionamento financeiro. A economia melhora nos indicadores, mas não na experiência cotidiana.

Há um dado adicional que aprofunda esse descompasso: a percepção social da economia segue deteriorada. Levantamentos recentes indicam que uma parcela significativa da população avalia que a situação econômica piorou, mesmo diante de indicadores positivos. Isso revela que a disputa política não se dá apenas no plano material, mas na forma como a realidade é interpretada.

No plano macroeconômico, o efeito também é relevante. Famílias endividadas tendem a reduzir consumo para reorganizar o orçamento. Em uma economia onde cerca de dois terços do PIB dependem do consumo das famílias, esse movimento atua como freio ao crescimento.

O ponto central é que melhorar a economia deixou de ser condição suficiente para melhorar a política. A oposição, por sua vez, opera na dimensão simbólica, sustentando níveis de rejeição pouco sensíveis aos dados econômicos.

O desafio do governo está na conversão entre resultado e experiência. Sem transformar crescimento em melhora concreta percebida, os indicadores avançam, mas a adesão não acompanha. É nesse intervalo — entre dado e percepção — que se estrutura o cenário político e se projeta, desde já, a disputa de 2026.

Clayton Monte é cientista político

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