Com o título “Reciprocidalismo – A espoleta do despertar”, eis mais um artigo de Nizomar Falcão, PhD e engenheiro agrônomo da Ematerce. “O agente rural deve compreender que o desenvolvimento rural fracassou porque tentou substituir a alma do sertanejo por uma bula técnica; isto é, acreditar que o agricultor é uma “vasilha vazia” à espera de tecnologia”, expõe o articulista.
Confira:
Após a extinção da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater – 1990), a assistência técnica e extensão rural (Ater) sofreu uma grande agitação. Compreendê-la exige uma abordagem multidimensional, focada na descontinuidade política, no vazio institucional e na mudança do paradigma do desenvolvimento rural.
A supressão da Embrater, provocou uma ruptura abrupta que desarticulou o sistema oficial de extensão nos estados, deixando pequenos produtores à margem da transição para o progresso tecnológico, por conta de:
1. Fatores Políticos e Institucionais. O fim da Embrater, acabou com a coordenação federal das políticas de extensão, resultando no desmonte, privatização ou sucateamento das Ematers estaduais. Entidades estaduais dependiam até 90% do orçamento federal; sem a Embrater, muitas entraram em crise técnica e financeira. A falta de uma política nacional centralizada gerou perdas irreversíveis na Ater, especialmente, para a agricultura familiar;
2. Mudança de Paradigma e Consequências Sociais. O modelo anterior difusionista (modernização) focado em insumos químicos foi substituído por uma tentativa de mercado, que atendeu apenas agricultores com capacidade de pagamento, excluindo a maioria dos agricultores familiares. Os estados mais pobres sofreram mais intensamente com a falta de assistência, acentuando disparidades. Houve perda de metodologias participativas e do foco no desenvolvimento sustentável, com a extensão se tornando mais individualizada e focada em assistência sócio-cidadã, do que em educação rural;
3. Consequências produtivas e a “privatização” da Ater. A Ater pública (Ematers) foi enfraquecida, enquanto grandes e médios produtores foram atendidos por consultorias privadas e indústrias de insumos (comerciais), consolidando a dualidade no campo. Apenas uma fração dos estabelecimentos rurais familiares recebe Ater, limitando a produtividade e a sustentabilidade. Após o desmonte, surgiu um modelo de “pluralismo”, onde ONGs, cooperativas e empresas privadas passaram a atuar, com resultados desiguais.
O Reciprocidalismo detecta um erro crasso na gênese da Ater. Os mentores primários acreditavam que os agentes rurais seriam capazes de induzirem os produtores rurais a mudarem seus modos de produção pelo convencimento, como se o saber fosse algo bancário (fora para dentro dos indivíduos).
O Reciprocidalismo; todavia, inverte essa convicção: os saberes são despertados de dentro para fora e, recomenda a utilização dos métodos de Extensão Rural como espoletas para disparar esse processo; ou seja, os indivíduos mudam de comportamento em relação a decisão de adotar ou não, determinada tecnologia, quando elementos cognitivos entram em conflito com aspectos da consciência humana.
O papel do mediador (agentes de Ater), nos Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido (NITs), no sistema sócio-econômico do Reciprocidalismo, não é ser o projétil, mas a espoleta que vai disparar o gatilho do conflito psicológico. Isso pode ser feito por meio dos métodos de extensão rural, como Unidades Demonstrativas (U.D.), Unidades de Observação (U.O.) Demonstração de Resultados (D.R.) etc.
O agente rural deve compreender que o desenvolvimento rural fracassou porque tentou substituir a alma do sertanejo por uma bula técnica; isto é, acreditar que o agricultor é uma “vasilha vazia” à espera de tecnologia. O saber já habita o produtor rural; ele está apenas bloqueado pela anomia e pela dependência. A mudança de comportamento só ocorre quando o indivíduo resolve o conflito entre a necessidade de sobreviver e a dignidade de prover.
*Nizomar Flacão
Ph.D e Engenheiro Agrônomo da Ematerce.