Com o título “Mulheres que moldam”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestra em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. Um belo texto neste Mês das Mães.
Confira:
Sou feita de mulheres fortes. Dessas que travaram uma luta silenciosa, repetida e diária contra as imposições que as apertavam, o medo que rondava e os julgamentos que tentavam impedir seu caminhar.
Sou parte das que lutavam ficando, mesmo quando o sentir era pouco e a obrigação transbordava, ou quando sorrir era um ato de resistência contra a dor que inundava o peito e apertava o coração. Das que ficavam mesmo atravessadas por incertezas e pelas fragilidades do querer.
Eu carrego também um pedaço das que lutavam partindo. Sem pedirem licença para existir nem recuar diante dos julgamentos. Escolhiam a liberdade, o viver. Apesar do medo, partiam com a coragem que nascia onde tudo parecia ruir.
Muitas tropeçavam, outras caíam. Mas a cada tropeço, se impulsionavam para seguir adiante. Nas quedas, não esperavam mãos estendidas. Erguiam-se, determinadas, com o olhar firme em meio a um caminho de incertezas. Parecia que a dor doída fortalecia o propósito.
Mas, nesse caminhar torto e rebelde, havia ternura. No olhar amoroso, no abraço forte, no atender às necessidades dos filhos, no sonhar compartilhado, no cuidar, na doação, no apoiar sem julgar, no ensinar o valor da vida.
Neste mês de maio, quando reverenciamos as mães — presentes, solos, ausentes, as que carregam culpas, as tias que se fizeram mães, as livres, as trabalhadoras, as feministas — partilho minha gratidão às mulheres de minha família, aquelas que vieram antes de mim nessa jornada terrena. Volto também o coração à Maria, a quem sou devota, e recorro ao seu olhar para meus filhos e minha netinha.
Tenho buscado honrá-las no exercício diário do maternar. Honro minha bisavó Flora pela fé serena de que somos assistidos por seres luminosos; minha avó materna pela firmeza das decisões, sem perder a leveza do amar os seus e a tantos que se achegavam; minha avó paterna que rompeu as amarras de seu tempo e ousou voar além do que lhe foi permitido sonhar.
Honro minha mãe pela beleza da doação, da doçura e pela fé que nunca vacila; a duas tias-mães, uma já retornou ao plano espiritual, por ensinarem que coragem e ternura podem caminhar juntas.
Sou feita dessas mulheres. Das que ficaram e partiram. E de todas que reinventaram o próprio existir.
*Suzete Nocrato
Jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.