Com o título “Quem educa na era digital: a escola pública ou os algoritmos?”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e especialista em Negócios Internacionais, e Odair Santos, advogado e assessor sindical, com atuação em educação e políticas públicas.
A chegada das plataformas digitais inundou o planeta com informações e fragmentou os espaços de formação das novas gerações. No nosso país, a escola pública, principal ambiente para elaboração da consciência crítica das massas, sofreu os impactos imediatos desse dilúvio.
Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil (2025), 92% da população de 9 a 17 anos é usuária de internet no país. Essa parcela da sociedade, que tende a passar mais tempo concentrada no universo digital do que nas atividades educativas formais, consome conteúdos guiados pela lógica financeira dos algoritmos, que são programados para obter lucro por meio da máxima retenção da atenção e do engajamento constante dos usuários.
Sem nenhum compromisso com a verdade e a cidadania, essa dinâmica voltada para o consumo desenfreado, controlada pelas big techs, promove a desinformação em larga escala pela validação de publicações que equiparam opinião e conhecimento, relativizam fatos históricos, gestam conspiracionismos extremistas, deslegitimam as instituições democráticas e – como nos alertou o escritor e analista político ítalo-suíço Giuliano da Empoli em seu livro Os
Engenheiros do Caos – se alimentam principalmente de emoções negativas, pois são essas que geram interação e mantém os usuários com os olhos vidrados nos monitores.
A voz da ignorância emanada do plano virtual se propaga no ambiente escolar na forma de violência manifestada na patrulha ideológica sobre os professores, nas exposições vexatórias de suas imagens, no bullying e na censura de temas educacionais, bem como nas agressões verbais e físicas durante as aulas, corroendo a autoridade pedagógica e transformando a escola num lugar de animosidade, estresse e adoecimento, ou seja, com o advento das plataformas
digitais, a formação escolar não somente perdeu centralidade mas também passou a operar sob constante contestação.
Na medida em que a barbárie avança, a obra do jurista e educador brasileiro Anísio Teixeira se torna cada vez mais atual. Ele via na escola pública laica, gratuita, obrigatória e crítica, a materialização de uma máquina que prepara as democracias e de um instrumento fundamental para a justiça social e a formação do cidadão. Nesse sentido, cabe destacar que a educação é um direito consagrado no art. 205 da Constituição Federal de 1988. Esse mesmo artigo determina a educação como dever do Estado e da família.
Infelizmente, muitas famílias também estão expostas à deformação subjetiva das redes, restando ao Estado a obrigação de proteger as crianças e adolescentes dos efeitos nocivos do ambiente online e de materializar o direito à educação em sua plenitude. Nesse sentido, o ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor desde março deste ano, se destaca como iniciativa inovadora para auxiliar nessa tarefa. Educar não é apenas transmitir informações, é sobretudo formar consciência, propiciar autonomia e gerar capacidade crítica para que a pessoa, de forma qualificada, aprenda a duvidar, inclusive daquilo que parece óbvio nas telas.
Para isso, é necessário que façamos a disputa pelo fortalecimento da educação pública valorizando seus profissionais e financiando-a adequadamente. Se abrirmos mão da centralidade do papel formador da escola, estaremos jogando as novas gerações no mar revolto das fake news e da superficialidade informacional, sob a manipulação da mão invisível das
maiores e mais influentes empresas de tecnologia do mundo, cujos donos não têm qualquer compromisso com a educação e, por conseguinte, com o futuro do povo brasileiro. Afinal, a disputa pelo ato de educar, na era digital, é também uma disputa pelo sentido da sociedade que queremos construir.
*Vanilo de Carvalho
Advogado e Mestre em Negócios Internacionais
*Odair Santos
Advogado e assessor sindical, com atuação em educação e políticas públicas.