Com o título “Psicologia do poder”, eis artigo de Djalma Pinto, advogado, escritor e ex-procurador-geral do Estado. “(…) Por isso, a psicologia do poder deve buscar manter acesa, na mente dos seus ocupantes, a permanente lembrança de sua brevidade e a constatação de que muitos, que o ocuparam de forma tão impactante, perderam, depois, até a capacidade da autogovernança”, expõe o articulista.
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O poder político, por permitir uma superioriodade institucional, estimula a vaidade e o comportamento egocêntrico. Isso acaba levando muitos governantes a se desconectarem da realiadade. Imaginarem-se, por exemplo, ser diferentes e superiores aos demais indivíduos; a supor que somente a sua pessoa é capaz de conduzir o destino de sua coletividade. A realidade, marcada pela força implacável do tempo, comprova, porém, a insignificância do ser humano a partir da sua incapacidade de preservar o vigor da juventude no crepúsculo de um existir prolongado.
O Brasil, a propósito, foi surpreendido com a interdição do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Com a decretação de medida judicial declaratória de sua incapacidade para a prática dos atos da vida civil e do gerenciamento dos seus próprios bens. A longevidade, como triunfo do desenvolvimento humano, traz consigo a necessidade de superação dos obstáculos para a conquista de um “envelhecimento ativo” e um combate eficaz de enfermidades gravemente
incapacitantes.
É doloroso constatar que o sociólogo mais celebrado de sua geração, o responsável pelo extermínio da inflação que infelicitava toda a Nação, não pode sequer governar-se, necessitando de cuidadores para sobreviver com o mínimo de dignidade.
A lição dos infortúnios humanos é clara. Somos efêmeros. Não se deve ter ilusão durante o exercício do poder. Os encantos e a sedução, que a força e aautoridade do cargo propiciam, jamais podem suprimir a certeza de sua transitoriedade. Por isso, o melhor a fazer é utilizar todos os momentos de sua ocupação para a realização de sua finalidade única: a satisfação do bem comum, do interesse coletivo.
A longevidade das pessoas é uma realidade no mundo contemporâneo. O desafio, porém, não é apenas viver muito é, também, preservar a qualidade de vida. Em 1995, ao ser diagnosticado com Alzaheimer, Ronald Reagan, 40º Presidente dos Estados Unidos, publicou uma carta ao público norte-americano: “Neste momento, sinto-me muito bem. Pretendo viver o resto dos anos que Deus me der a fazer as coisas que sempre fiz […] Lamentavelmente, à medida que a doença de Alzaheimer vai avançando, a família tem muitas vezes de carregar um pesado fardo. Gostaria muito que houvesse uma forma de poupar a Nancy a esta dolorosa experiência”. Faleceu em 2004.
Essa enferimidade retira da pessoa toda a capacidade de reflexo, desprendendo-a do mundo. Pode afetar qualquer ser humano. Por isso, a psicologia do poder deve buscar manter acesa, na mente dos seus ocupantes, a permanente lembrança de sua brevidade e a constatação de que muitos, que o ocuparam de forma tão impactante, perderam, depois, até a capacidade da autogovernança. De gerir a si mesmo.
*Dalma Pinto
Advogado e autor de diversos livros, entre os quais “Educação para a Integridade”, “Direito Eleitoral”, “Anotações e Temas Políticos”, “Distorções do Poder” e “Ética na Política”.