Com o título “Amor de Mãe”, eis texto de Célio Fernando, economista e filho.
Confira:
Faço este texto em homenagem à minha mãe, na saudade, e a todas as mães. Sou pai que afirma: mãe não cabe em data. Transborda. É excesso que não pede desculpa, amor que não aguarda permissão. Mãe é presença antes do nome, calor
antes da palavra, gesto que antecede qualquer explicação. Quem nunca provou esse colo, essa mão que aparece sem ser chamada, esse olhar que encontra antes mesmo de procurar, será que consegue imaginar o que perdeu? Há mães que foram mais mães do que qualquer definição suportaria. A tia que acolheu quando a biologia escolheu. A avó que virou mãe de novo, sem reclamar, sem pedir, apenas porque o afeto não envelhece. A amiga mais querida que confortou com a precisão silenciosa de quem sabe o lugar certo no momento exato. Não seria a mãe a natureza do amor que encontra o corpo onde precisa habitar?
Mãe Terra. Terra Mãe. Gênese e berço de uma humanidade que insiste em esquecer de onde veio. Mãe Natureza, anterior a todas as mães, que gera sem pedir reconhecimento e sangra quando ignorada. Em toda fé, em toda tradição, não seria a figura que guarda, alimenta e intercede aquela que aparece com rosto de mãe? Na Igreja, na Mesquita, no templo do politeísmo, nas religiões da matriz africana, no espírito da natureza, a mãe é sagrada, é origem, é base, é o nome que
se chama nas horas em que nenhum outro nome vem. Ser mãe pode não ter gênero. Há pai-mãe. Há tio-mãe. Há quem nunca gerou e gerou mais do que qualquer ventre poderia. Porque ser mãe não seria compromisso, devoção, uma entrega que se renova todos os dias ao colocar o outro antes do cansaço? Porque ser mãe não se explica, não se programa. Simplesmente acontece, se aprende, se transforma e transforma ao outro, como acontece com tudo que é verdadeiro, complexo e profundo. E então há as que partiram.
As que já não estão no mundo que se vê, porém permanecem no único lugar onde nenhuma ausência consegue chegar: dentro. A mãe que se foi não deixou vazio, deixou forma. Deixou o jeito de temperar, o cheiro que ainda visita sem avisar, a voz que aparece nos sonhos com a mesma naturalidade de sempre, como se o tempo fosse apenas um detalhe sem importância. A saudade dói porque o afeto não terminou. Nunca termina. Não seria essa a crueldade bonita da perda, a de carregar alguém que o mundo não vê mais, todavia que vive inteiro em cada gesto que herdamos sem perceber?
Há ainda as mães que carregam o peso mais silencioso que existe: o de ter gerado um anjo. Mães que não trocam fraldas hoje, embora ainda dobrem roupinhas dentro do coração. Que celebram aniversários em silêncio, que choram em datas
que o mundo não marca no calendário, que amam com uma intensidade que não encontrou terra para fincar raiz e, ainda assim, não deixou de ser amor por isso. Esse zelo não seria o mais profundo que existe, justamente porque persiste sem
retorno visível, por que insiste sem abraço de volta? A mãe de anjo não perdeu um filho. Ganhou um guardião que nenhum olho vê, porém que nenhuma dor apaga.A mãe que se foi não é ausência. Seria presença de outra forma? Eternizada não na fotografia, não na data, mas no coração que aprendeu com ela a bater. Mãe que adota, que não gera, mas ama e cuida como se tivesse gerado.
Não seria bonito que minha nação fosse assim? Mãe. Que protegesse seus filhos antes de proteger os números. Que acolhesse antes de excluir. Que lembrasse que toda política, no fundo, deveria ser um ato de maternidade coletiva.
E, falando em política, é preciso dizer o que ainda se diz baixo demais: a mãe é a base. Não como metáfora, mas como fato. Não é ela que sustenta a família quando tudo oscila? Não é ela que segura a moradia, que organiza o orçamento
impossível, que cria filhos sozinha em lares que o Estado mal enxerga? A mãe chefe de família representa hoje cerca de metade dos lares brasileiros, segundo o IBGE. Seria essa a maioria silenciosa que move o país sem aparecer nas
manchetes?
Há também a mãe que é tão mãe porque cuida e abriga muitos filhos: filhos-alunos, filhos de coração, filhos que precisam de amor.
A lei avançou. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Maria da Penha, a licença-maternidade e a proteção à gestante no trabalho são conquistas reais, ainda assim insuficientes diante da realidade que as mães enfrentam todos os
dias. A mãe solo que não tem com quem deixar o filho para trabalhar. A mãe que perde o emprego por ser mãe. A mãe que foi deixada e segue ameaçada. A mãe que não tem moradia digna, que cria filhos em estruturas que o poder público
prometeu e não entregou. A proteção legal existe no papel, porém ainda tropeça no caminho até a vida real.
E na política? A mãe ainda é minoria onde as decisões são tomadas. Continua sub-representada nos parlamentos, nas prefeituras, nos ministérios. No Brasil, mulheres ocupam menos de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Ainda
precisa provar mais, falar mais alto, ocupar o espaço que deveria ser naturalmente seu. Quem nos ajudaria mais a entender de proteção, de cuidado, de pensar no longo prazo, do que quem já fez disso a própria existência? Mais
mães na política, mais mulheres na política, não seria símbolo apenas, mas necessidade. É ela a competência, o olhar que falta nas decisões que afetam exatamente quem passou a vida inteira protegendo.
Uma sociedade que não coloca também as mães no centro das suas decisões não seria uma sociedade que ainda não entendeu de onde vem sua própria força? Homenageio as mães que se foram e seus filhos nos conflitos recentes do mundo. E registro: a solução não passaria também pelas Mães Líderes Globais? Quem, senão uma mãe, para nos ajudar a compreender tamanha complexidade e, mais do que compreender, costurar caminhos de paz onde hoje só há ruína? Nunca esqueci as “Madres de Plaza de Mayo”, símbolo de resistência contra a ditadura na Argentina.
Por isso, encerro voltando ao começo, ao íntimo que sustenta tudo o que aqui foi dito.
Amo minha mãe.
Amo a mãe dos meus filhos.
Amo minha sogra, mãe presente, para mim um presente.
E sinto, com a saudade mais bonita que existe, cada mãe que partiu e ficou ao mesmo tempo. Cada mãe de anjo que ama sem poder tocar. Cada mãe que governa uma casa, uma comunidade, uma nação, muitas vezes sem que ninguém
perceba.
Porque mãe, mesmo quando vai, nunca vai de verdade. Não estaria ela sempre aqui, continuando a cuidar?
Ainda sinto e te sinto, minha mãe.
*Célio Frenando
Economista e filho.