Com o título “Flávio desdenha do seu eleitor no caso Vorcaro”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Mas a lógica bolsonarista, como se sabe, não se submete aos critérios que ela própria exige dos adversários. É um universo paralelo onde incoerência virou método e contradição passou a ser virtude. Foi assim quando se naturalizou a defesa de golpistas”, expõe o colunista.
Confira:
As recentes revelações sobre a proximidade financeira entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro preso Daniel Vorcaro tornadas públicas pelo site Intercep, expõem mais do que eventual constrangimento político. Escancaram, sobretudo, o grau de desprezo com que parte da elite bolsonarista parece tratar o próprio eleitorado.
Ainda não se sabe quais serão as consequências concretas do episódio. Mas uma coisa já é evidente. Um pedido, em tom de intimidade, de quantia tão vultosa a alguém cercado por graves suspeitas seria, em qualquer ambiente minimamente coerente, motivo suficiente para sepultar pretensões presidenciais. Não deveria sequer haver debate. O simples constrangimento moral bastaria.
Mas a lógica bolsonarista, como se sabe, não se submete aos critérios que ela própria exige dos adversários. É um universo paralelo onde incoerência virou método e contradição passou a ser virtude. Foi assim quando se naturalizou a defesa de golpistas. Foi assim quando se tentou vender como plausível a história de alguém que “esqueceu” de depositar R$ 400 mil em dinheiro vivo. E foi assim, também, quando multidões aceitaram o ridículo como prova de fé.
Houve quem bebesse detergente, quem boicotasse chinelos por delírio ideológico, quem rezasse para disco voador e quem prestasse continência para pneu em nome de uma devoção política sem qualquer filtro racional. Diante desse histórico, causa pouca surpresa que o caso Vorcaro seja tratado por muitos como detalhe irrelevante. Afinal, quando a crença substitui o juízo crítico, fatos se tornam acessórios.
Flávio Bolsonaro parece saber disso. E talvez por isso trate o episódio com tamanha desenvoltura, como quem tem absoluta convicção de que sua base aceitará mais essa explicação improvável sem maiores questionamentos. É um cálculo que revela desdém. Desdém por quem acredita. Desdém por quem repete slogans morais sem notar que eles só valem quando servem para atingir adversários.
Mais uma vez, assiste-se à prova de como é difícil qualquer diálogo com quem insiste em ver chifre em cabeça de cavalo, acha que focinho de porco é tomada e segue convencido de que, para certos ídolos, bandido bom é sempre o bandido solto.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.