Com o título “Ser conservador não é rótulo de idade”, eis a crônica quinzenal de Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora. “Minha reflexão é sobre se sentar ao lado de uma pessoa idosa e, só por conta da idade, supor que ela não possa ter vivido histórias ousadas para o seu tempo. Os mais jovens, principalmente, rotulam os que os antecederam de conservadores, como se isso fosse atributo da idade”, expõe a articulista.
Confira:
Ela foi direta no café da manhã quando me contou, em 10 minutos, sobre como pegou para si as rédeas da vida. Nunca quis ser esposa, preferiu ser amante. Tomou a decisão ainda jovem e sofreu com a resistência dos pais que não se conformavam da filha estar com parceiros que precisavam de esconder. E sem que eu nem tivesse tempo de perguntar, foi logo esclarecendo que nunca havia se visto no papel de casar, porque seria cuidar de homem. “Na grande maioria dos casos eles escolhem uma mulher, pensando que terão uma substituta da mãe! Por isso, nunca incentivou que se separassem da esposa para ficar com ela. Hoje, com cerca de 75 anos, diz que sente tranquila com os caminhos que seguiu.
Esta minha companheira circunstancial num café de um hotel em que eu estava a trabalho, me lembrou que autonomia é algo que perpassa gerações. Ela fez essa opção aos vinte e poucos anos, indo no sentido inverso das amigas, que sonhavam com casamento. Os pais e as amigas se afastaram dela.
Os 10 minutos em que eu soube de seus amores e desamores, entre rodadas de ovo, queijo, bolo e geleia do hotel, se multiplicaram em reflexões ao longo dos dias seguintes. Meus pensamentos giravam no quanto julgamos as pessoas. E não estou falando da decisão dela de não querer ter relacionamentos monogâmicos.
Minha reflexão é sobre se sentar ao lado de uma pessoa idosa e, só por conta da idade, supor que ela não possa ter vivido histórias ousadas para o seu tempo. Os mais jovens, principalmente, rotulam os que os antecederam de conservadores, como se isso fosse atributo da idade.
Não é e nunca foi. Viver o que se quis – ou se quer – é uma questão de percepção sobre a vida.
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora