“Não deu para queimar o filme” – Por Luciano Cléver

Luciano Cléver é jornalista

“Convenhamos, se não aparecer dinheiro público, favorecimento estatal ou contrapartida vexaminosa, há espaço para recuperação política”, aponta o jornalista Luciano Cléver

Confira:

Os áudios de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro provocaram estrago na candidatura dele. Talvez não jurídico. Mas político, sem dúvida.

Até aqui, não surgiu nada que revele ilicitude direta, dinheiro público desviado ou contrapartida criminosa. Mas gerou uma crise de confiança.

Flávio havia afirmado que não tinha relação com Vorcaro. Não só tinha, como a conversa com o “meu irmão” revelou intimidade.

O episódio virou o primeiro teste de estresse da candidatura. E logo um teste de fogo.

Agora será possível medir a resistência eleitoral de Flávio diante do desgaste. Ver se a militância absorve, se o eleitor relativiza. Ver se dá para lavar com Ypê.

Convenhamos, se não aparecer dinheiro público, favorecimento estatal ou contrapartida vexaminosa, há espaço para recuperação política. O que não mata, engorda.

Os governistas comemoram, mas as delações estão chegando.

O Master nasceu muito antes de virar esse tsunami, no tempo do Credcesta do PT baiano. Tinha cheiro de acarajé, antes de tentar se transformar num gigante financeiro que depois explodiria nacionalmente.

Vorcaro não tem predileção por azul ou vermelho.

Aproximou-se do poder, em todas as esferas.

Houve encontro fora da agenda com Lula. Contratação da esposa de Alexandre de Moraes. Relações com Dias Toffoli. Degustações com as maiores autoridades da República.

Vorcaro parecia montar um álbum de figurinhas do poder brasileiro. Se duvidar, nem a CBF escapa.

Os escândalos vêm em onda, como o mar, afogando quem achava que nada do que foi seria de novo do jeito que já foi um dia.

Não adianta fugir. Anteontem, foram os juízes do STF. Ontem, Ciro Nogueira. Hoje foi Flávio. Amanhã, quem sabe?

Quem com Master fere, com Master pode acabar ferido.

O governador Romeu Zema também tentou surfar na onda. Classificou a conversa como “inaceitável” e “um tapa na cara da sociedade”.

No dia seguinte, veio o constrangimento: a prisão de Daniel, pai de Vorcaro, que havia sido doador de sua campanha. Como a provar que não há nada de novo no Novo. A não ser, os fantoches.

O Master vai se revelando um escândalo ecumênico, atingindo direita, esquerda, centro, governo, oposição, empresários e autoridades.

Um verdadeiro Taiaiaiá institucional.

Não há dúvida que Vorcaro queimou o filme de Flávio.

E aqui cabe a ironia final.

Se Dark Horse significa azarão, talvez nunca um título tenha se encaixado tão bem.

Resta saber qual foi o tamanho do azar de Flávio com a divulgação dos áudios.

Ou se, paradoxalmente, teve sorte. Porque, na política, às vezes o escândalo que explode cedo demais ainda deixa tempo para recuperação.

No fim, é possível que ninguém se atreva a sacar o Master contra o outro. O tiro pode sair pela culatra. No máximo vão usar uma bengala, a do Bat Masterson.

Luciano Cléver é jornalista

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