“Conjunto Ceará, marco da retomada” – Por Luis Sérgio Santos

Luís Sérgio Santos é professor de Jornalismo da UFC. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “Conjunto Ceará, marco da retomada”, eis artigo de Luis Sérgio Santos, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará. “(…) a disputa eleitoral tende a se apoiar na narrativa em torno de quem conseguirá convencer o eleitorado de possuir maior capacidade de reorganizar o Estado, recuperar a autoridade pública e enfrentar a crise da violência”, expõe o articulista.

Confira:

A fala do ex-senador Tasso Jereissati marca um retorno simbólico ao centro do debate político cearense ao lado do ex-governador Ciro Gomes, em um discurso que mistura memória administrativa, crítica institucional e uma carga enorme de emoção. Tasso estava no túnel do tempo, naquele evento de pré-lançamento que aconteceu no sábado, 17/5/2026, no populoso bairro Conjunto Ceará, em Fortaleza. Ao afirmar que entra na luta para “devolver o Ceará à sua grandeza”,

Tasso resgata uma a história do ciclo político iniciado nos anos 1980, quando o “grupo das mudanças” se apresentava como alternativa à tradicional estrutura coronelista do estado do Ceará. A escolha do Conjunto Ceará como palco para este novo momento é carregado por muita nostalgia e forte simbolismo. Quantas campanhas tucanas foram lançadas ali?

A síntese das ideias apresentadas por Tasso Jereissati no evento de oficialização da pré-candidatura de Ciro Gomes gira em torno de cinco eixos principais:

Reconstrução do Ceará: Tasso defende que o Estado perdeu sua grandeza e afirma que se une a Ciro numa “luta pelo Ceará”, tratando a eleição como um momento decisivo para recuperar desenvolvimento, autoridade e capacidade administrativa.

Crítica à segurança pública: O ex-senador sustenta que as facções criminosas passaram a dominar territórios urbanos e interiores do Estado, enquanto o poder público teria perdido presença e controle em várias regiões.

Resgate de um projeto de desenvolvimento: Tasso relembra a parceria histórica com Ciro, destacando que ambos participaram de um ciclo de crescimento econômico, geração de empregos e aumento de renda, contrapondo esse período ao cenário atual, onde “não vem mais indústrias para o Ceará”.

Valorização do compromisso político com o Ceará: Ao citar a recusa de Ciro em disputar a Presidência da República, Tasso enfatiza a ideia de dedicação prioritária ao Estado e à política local.

Crítica ao modelo administrativo atual: O discurso aponta que o governo estaria excessivamente voltado para interesses políticos, partidários – funcionando com bem mais que 35 órgãos com status de secretaria, autarquias estratégicas e vinculadas diretamente ao governador – e distribuição de cargos, enquanto problemas sociais, pobreza e perda de investimentos industriais avançam. Para Tasso, a política deve ser guiada pelo compromisso com a população e não pelo
aparelhamento da máquina pública.

O ponto mais forte do discurso trata do problema da segurança pública. Ao dizer que “quem manda são as facções” e que “o Estado não existe”, Tasso cristaliza a percepção de insegurança que cresce em muitos municípios cearenses. É uma fala dura, construída para transmitir sensação de urgência e colapso institucional na segurança pela leniência e omissão dos atuais donos do poder. Politicamente, isso ajuda a deslocar o debate da disputa partidária tradicional para uma ideia de “reconstrução do Estado”, tentando transformar a eleição em algo maior que uma simples alternância de governo, mas em uma descontinuidade, uma ruptura estrutural.

Também chama atenção o fato de Tasso enfatizar que não pretende disputar cargos. Isso lhe permite assumir uma posição de “conselheiro” ou liderança moral, sem o desgaste típico de candidato. Ao mesmo tempo, reforça o peso político da adesão: assim, ele agrega capital simbólico e credibilidade administrativa e política à pré-candidatura de Ciro Gomes.

A retórica utilizada busca unir dois elementos muito fortes no imaginário político cearense: a nostalgia de um período que foi o de maior organização e reordenamento administrativo, e a sensação contemporânea disseminada nas massas de perda do controle sobre a segurança pública no Ceará, dominado por facções. O discurso é claramente direcionado a setores do eleitorado que enxergam deterioração institucional e clamam por uma liderança firme no enfrentamento ao crime organizado. Ciro Gomes foi aguerridamente enfático ao defender o enfrentamento da crise vivida pelo Ceará.

Por outro lado, adversários certamente argumentarão que o diagnóstico apresentado é excessivamente dramático ou meramente eleitoral. Lembrarão — tirando seus “fiofós” da reta, na expressão popular nordestina — que os problemas ligados às facções criminosas também cresceram nacionalmente ao longo de diferentes governos e conjunturas. A frase acrescenta um tom coloquial e irônico ao comentário, sugerindo que muitos agentes políticos tentarão se eximir de responsabilidades históricas pela deterioração da segurança pública. Lembrarão que problemas ligados às facções criminosas também cresceram nacionalmente. Assim, a disputa eleitoral tende a se apoiar na narrativa em torno de quem conseguirá convencer o eleitorado de possuir maior capacidade de reorganizar o Estado, recuperar a autoridade pública e enfrentar a crise da violência. Nesse cenário, Ciro Gomes e Tasso Jereissati apostam no discurso da experiência administrativa, da firmeza institucional e da reconstrução do Ceará, enquanto os adversários deverão defender avanços sociais e administrativos, relativizando os fatos de colapso apresentados pela oposição.

*Luis Sérgio Santos

Professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará.

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