Com o título “A escada que ninguém mais sobe”, eis artigo de Gera Teixeira, empresário. “A carreira não linear exige uma capacidade rara: suportar períodos em que a identidade ainda não terminou de tomar forma. Há dias em que a pessoa não sabe exatamente quem está se tornando, apenas percebe que já não cabe no que era antes. Isso produz medo, mas também produz vida”, expõe o articulista.
Confira:
Durante muito tempo, venderam a ideia de que a vida profissional era uma escada. Bastava subir. Um degrau depois do outro. Havia quase um conforto nisso. A sensação de que esforço acumulado produziria continuidade, reconhecimento e alguma estabilidade emocional. Quem olhasse para trás enxergaria uma trajetória lógica, limpa, previsível.
Só que a escada já estava rachada havia muito tempo.
As demissões em massa, a aceleração tecnológica, a inteligência artificial, as mudanças silenciosas que aconteceram dentro das pessoas durante os anos de isolamento apenas expuseram algo que já não se sustentava. Muita gente percebeu, talvez tarde, que tinha organizado a própria identidade em torno de estruturas frágeis demais. Bastou um corte, uma crise ou uma mudança brusca de mercado para não ruir apenas o emprego, mas a sensação inteira de pertencimento.
O que surge no lugar disso não tem a elegância linear de antes. A vida profissional passou a parecer mais um terreno de travessias instáveis. Mudanças laterais. Reinvenções. Pausas difíceis de explicar. Gente começando de novo aos cinquenta. Profissionais experientes aprendendo linguagens novas enquanto jovens tentam descobrir se ainda faz sentido sonhar como seus pais sonharam.
E talvez exista algo honestamente humano nisso.
A carreira não linear exige uma capacidade rara: suportar períodos em que a identidade ainda não terminou de tomar forma. Há dias em que a pessoa não sabe exatamente quem está se tornando, apenas percebe que já não cabe no que era antes. Isso produz medo, mas também produz vida.
Talvez por isso os planos rígidos tenham perdido tanta força. Hoje, pensar dez anos à frente soa menos como estratégia e mais como ficção reconfortante. O horizonte real ficou mais curto. Dezoito meses. Dois anos, no máximo. E ainda assim com revisões constantes.
Nesse cenário, quem consegue atravessar melhor o caos normalmente não é quem tem mais certezas, mas quem possui âncoras mais profundas. Valores. Princípios. Um modo de existir que não depende exclusivamente de crachá, cargo ou prestígio. As âncoras não impedem o movimento. Apenas evitam que a pessoa desapareça dentro dele.
A escada quebrou. Talvez definitivamente.
Mas, depois do susto, sobra uma pergunta menos confortável e mais verdadeira: o que cada um fará com o espaço que a queda abriu dentro de si?
*Gera Teixeira
Empresário.