“Cinco décadas entre o medo e a Ciência” – Por Suzete Nocrato

Suzete Nocrato é jornalista e Mestra em Comunicação Social da UFC. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “Cinco décadas entre o medo e a Ciência”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “A desinformação de cinquenta anos atrás era, até certo ponto, compreensível, já que o acesso à informação era limitado. Atualmente, porém, o negacionismo acende um sinal de alerta preocupante, especialmente diante de tantas evidências científicas e da facilidade de acesso ao conhecimento”, expõe a articulista.

Confira:

Dias desses, acompanhei uma discussão entre dois profissionais da saúde. De um lado, um jovem médico questionava a segurança e a eficácia das vacinas. Do outro, uma enfermeira chamava atenção para o reaparecimento de doenças que já estavam controladas, mas que voltaram a ameaçar a população por causa da queda nos índices de imunização.

Aquela conversa me levou de volta a abril de 1973. Tarde ensolarada na cidade de Saboeiro. Crianças correndo desesperadas tentando salvar o resto de dignidade. Ou seria, a própria vida.

Naquele longínquo ano, os alunos do Grupo Escolar Olavo Oliveira procuravam escapar da danada da injeção que homens sisudos e mulheres emburradas aplicavam nos braços dos que passavam à sua frente. As principais vítimas, os pequeninhos, que não conseguiam se desviar dos intrusos. Os mais velhos atropelavam-se pelos corredores, pulavam as janelas em busca de socorro.

O alvoroço era tamanho. Nem mesmo as professoras e a autoritária diretora conseguiam acalmar a garotada. Não, não era uma experiência científica ou massacre de criancinhas.

Na verdade, a unidade escolar estava recebendo técnicos do Programa Nacional de Imunizações, criado naquele ano pelo Ministério da Saúde, para erradicar a febre amarela urbana e a varíola.

Primeira campanha de vacinação na cidade. O atraso era grande. As doenças infecciosas imperavam por aquelas bandas. Sarampo, caxumba, varíola, coqueluche, dordolho atacavam os moradores. Ninguém escapava.

Para alguns, a prevenção chegava na hora certa. Para outros, atrasada. Pais perdiam seus rebentos sem nenhuma assistência. Médico era coisa rara. Imunização, palavra feia, ou melhor, desconhecida.

Os surtos iam e vinham a cada nova estação. Dona Dolores, velha parteira, benzia populares com galhos de peão roxo para espantar a morte. Às doenças, amaldiçoava cada uma debaixo do pé de oiticica que tomava a frente de sua casa. Das “malditas”, como costumava chamá-las, escapei somente da coqueluche e da varíola.

Naquele ano, eu e minha irmã caímos de cama com sarampo. Febre alta, dor no corpo, pele manchada e muito medo de morrer. Dividíamos a atenção de minha mãe, que se desdobrava em carinhos e remédios.

Guaraná e bolacha cream cracker pareciam amenizar o sofrimento. Eram o melhor remédio. Dias trancadas no quarto abafado para não pegar friagem. Cobertores para acalmar a febre. Banho? Só de álcool. Meses após a cura, veio a caxumba. Desta vez, eu e meu irmão. Nada de andar pela casa ou fazer extravagância para a papeira não descer.

E o dordolho? Bastava um pegar, para todos amanhecerem com os olhos grudados, lacrimejando. O sol raiava e lá estávamos gritando por ajuda. Abrir os olhos, tarefa difícil. O remédio era lavá-los bem com água corrente, enxugar com algodão e passar a pomada penicilina. Para garantir a cura, reza da benzedeira.

A peleja e a desinformação na cidade eram de espantar. Na fuga da vacinação, levei a melhor. Ou seria, a pior. Miúda e ligeira fugi da agulha. Na época, eu me sentia orgulhosa. Semanas de conversa sobre a correria. Contávamos quem havia sido vacinado, como “salvamos” nossa pele daquele momento de horror.

Dois anos depois, estava eu numa enorme fila em frente a um posto de saúde na cidade do Crato para tomar a vacinar contra a meningite, que fazia vítimas no Ceará. Desta vez, o temor da doença foi mais forte que a covardia de enfrentar uma agulhada.

A desinformação de cinquenta anos atrás era, até certo ponto, compreensível, já que o acesso à informação era limitado. Atualmente, porém, o negacionismo acende um sinal de alerta preocupante, especialmente diante de tantas evidências científicas e da facilidade de acesso ao conhecimento.

*Suzete Nocrato

Jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.

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