Com o título “Ouvi dizer”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“A calúnia nunca se farta.” (Emanuel Wertheimer)
Confira:
Seu Zé e dona Maria, cheguem aqui um instantinho. Vou lhes contar uma história daquelas que andam por aí sem dono nem testemunha. Não sei se aconteceu, se não aconteceu ou se aconteceu pela metade. Só sei que ouvi dizer. E, quando uma conversa começa assim, o melhor é escutar com um ouvido e desconfiar com o outro.
Eu ouvi dizer, mas não me perguntem quem foi que disse. Também nem lembro onde ouvi. Só sei que alguém comentou com alguém, que contou para outro alguém, e a história foi ganhando o mundo. Diziam que o caso era sério. Muito sério.
Daqui a pouco apareceu um sujeito afirmando que tinha visto tudo. Ou quase tudo. Talvez tivesse apenas ouvido falar. Talvez nem isso. Mas falava com tanta convicção que parecia testemunha de cartório.
Não demorou para surgir outra versão. Um cidadão garantiu que nada tinha acontecido daquele jeito. Teria sido diferente. Como diferente? Ninguém soube explicar. O curioso é que todo mundo tinha certeza de uma história que ninguém conhecia direito.
E disseram mais. Que fulano – ou seria sicrano? – sabia de tudo desde o começo. Mas, por precaução, resolveu não abrir a boca. Ou abriu só um tiquinho. Ou contou para beltrano. Ou falou para a pessoa errada. Ou, quem sabe, não falou nada.
Quando se deu fé, a conversa já tinha criado pernas. Cada um aumentava um ponto e repetia um inevitável “ouvi dizer”. No fim, ninguém sabia o que tinha acontecido. Mas todos juravam que era gravíssimo.
E assim a história seguiu caminho, feito poeira de estrada em dia de ventania. Sem endereço, sem assinatura e sem testemunha. Apenas um bocado de gente repetindo o que ouviu de alguém que tinha ouvido de outro alguém que, pelo visto, não sabia de nada.
Pois bem. Este texto brinca com um costume das rodas de conversa e das redes sociais: aumentar histórias sem que ninguém assuma a autoria. Como diz o povo, “quem conta um conto aumenta um ponto”. E, às vezes, o conto acaba maior do que a verdade.
Por isso, em tempos de mensagens que correm ligeiro e opiniões que viajam mais rápido do que os fatos, vale lembrar: a verdade pode até andar devagar, mas costuma chegar mais longe. Antes de repetir o que ouvimos, convém conferir, refletir e ter cuidado com as palavras. Reputações, amizades e até vidas podem ser atingidas por histórias sem fundamento.
Enfim, a verdade continua sendo a melhor versão de qualquer história.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.