Com o título “A Copa do Mundo no País da liberdade”,eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “A Copa, que deveria celebrar diversidade e integração entre povos, acaba servindo de vitrine para a política que prefere suspeitar primeiro e perguntar depois. Enquanto isso, do outro lado da fronteira, o México recebe turistas e delegações com simpatia, calor humano e espírito festivo”, expõe o colunista.
Confira:
Os Estados Unidos sempre gostaram de vender ao mundo a imagem da terra da liberdade, do acolhimento e das oportunidades. Mas bastaram os primeiros dias da Copa do Mundo para que a propaganda encontrasse a realidade, e a realidade, convenhamos, não tem colaborado muito com o marketing.
Antes mesmo da bola rolar, o torneio já coleciona episódios que fariam qualquer manual de hospitalidade internacional corar de vergonha. Torcedores submetidos a longas abordagens, seleções enfrentando barreiras burocráticas e, no episódio mais emblemático, um árbitro somali credenciado pela FIFA impedido de entrar no país por decisão das autoridades americanas.
Como se não bastasse, relatos de abordagens constrangedoras a visitantes estrangeiros, especialmente pessoas negras ou consideradas “suspeitas” pelos rígidos protocolos migratórios, ajudam a transformar a festa do esporte em gigantesco posto de fiscalização.
A impressão é que, antes de mostrar o passaporte, o visitante precisa provar que merece respirar o ar da democracia americana. E diante disso, a ironia é inevitável. O país que mais fala em liberdade parece cada vez mais especializado em levantar barreiras, desconfiar do diferente e transformar imigração em espetáculo de intimidação
A Copa, que deveria celebrar diversidade e integração entre povos, acaba servindo de vitrine para a política que prefere suspeitar primeiro e perguntar depois. Enquanto isso, do outro lado da fronteira, o México recebe turistas e delegações com simpatia, calor humano e espírito festivo.
Curioso contraste para país frequentemente retratado pelos próprios americanos como sinônimo de insegurança. No Mundial, quem oferece acolhimento parece ser justamente quem mais sofre preconceitos externos. Os Estados Unidos entram na competição também carregando o peso de cenário político e internacional turbulento, marcado por conflitos, tensões diplomáticas e uma permanente sensação de imprevisibilidade.
Tudo isso contribui para fazer desta uma das Copas mais desconfortáveis da história recente. Talvez a grande lição dos primeiros dias seja que liberdade não é slogan estampado em discursos oficiais nem marca registrada de campanhas patrióticas. Liberdade também se mede pela forma como se recebe quem chega, pela confiança que se deposita no outro e pela capacidade de enxergar pessoas antes de enxergar suspeitos.
No fim das contas, a bola até pode rolar normalmente. Mas a imagem que ficará para muitos torcedores talvez não seja a de um gol inesquecível, e sim a de filas, revistas, interrogatórios e portas fechadas. Para quem sempre se apresentou como símbolo do mundo livre, é contradição difícil de esconder.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”.