“Literatura na Copa” – Por Mirelle Costa

Mariane Lopes, do @compartilhandoleituras

Eu sei, eu sei. Todo mundo promete não se empolgar mais com a Copa do Mundo, mas quando o mundial se aproxima, a gente nem se lembra das promessas e tira o mofo da camisa verde e amarela. É quase automático, a memória coletiva também entra junto. Alguns lembram os gols de Ronaldo, outros da cabeleira de Rivaldo e quem estava conosco em cada abraço partilhado, cada sorriso e até as músicas que tocavam à época, mas e a literatura? Onde ela entra nessas memórias?
Enquanto o Brasil conquistava o pentacampeonato mundial, em 2002 muita coisa acontecia no mundo da literatura.

A inspiração veio de uma publicação muito criativa da leitora e produtora de conteúdo literário Mariana Lopes, do perfil Compartilho Leituras (@compartilholeituras), que resolveu olhar para a Copa por outro ângulo: o das páginas dos livros.

E a viagem valeu a pena.

Em 2002, enquanto a seleção brasileira conquistava seu quinto título mundial, Manoel de Barros recebia o Prêmio Jabuti de Livro do Ano – Ficção com O Fazedor de Amanhecer. No cenário internacional, o escritor húngaro Imre Kertész era agraciado com o Nobel de Literatura, levando para o centro do debate literário sua poderosa reflexão sobre memória, sofrimento e resistência.

O ano também foi marcado pelas bienais do livro. São Paulo realizou a sua 17ª edição entre abril e maio, registrando público recorde e destacando a presença feminina no evento. Já Fortaleza recebeu a quinta edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, em outubro, homenageando Ariano Suassuna, um dos maiores nomes da cultura brasileira.

Enquanto isso, uma certa franquia de fantasia seguia encantando leitores de todas as idades. Harry Potter consolidava seu fenômeno mundial e mostrava que a literatura ainda tinha o poder de reunir multidões em torno de uma boa história.

Pensar nisso é curioso. Muitas vezes lembramos dos resultados da Copa, dos gols e das comemorações, mas esquecemos que a cultura também estava escrevendo seus próprios capítulos naquele mesmo momento.

E já que o assunto por enquanto é futebol, vale destacar uma iniciativa da Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), que reuniu uma seleção especial de obras para quem deseja conhecer melhor a história, os personagens e as narrativas que cercam o esporte mais popular do país.

Entre os títulos escalados estão Deus Criou a Bola. E o Homem Descobriu o que Fazer com Ela, de Orlando Duarte; Brasileiros Futebol Clube, de Luis Fernando Verissimo; Paixão: o Brasil de Todos os Mundiais, também de Orlando Duarte; O Brasil em Campo: a História do Futebol Brasileiro, de Cinthia Anhesini; além de obras dedicadas ao Castelão, às Copas do Mundo e às diferentes expressões do futebol brasileiro.

Futebol também é literatura

Toda Copa produz heróis, dramas, reviravoltas e histórias que atravessam gerações. Em outras palavras, toda Copa rende um grande enredo.

E talvez seja por isso que o futebol continue fascinando tanta gente: ele nos oferece aquilo que os bons livros também oferecem emoção, memória e histórias para contar.

Antes de encerrar, deixo meu agradecimento à Mariana Lopes, criadora do perfil Compartilho Leituras, por inspirar esta reflexão. Leitora desde a infância, Mariana criou o projeto em janeiro de 2023 com o desejo de conversar sobre literatura, cinema e cultura com outros leitores. Para ela, a leitura sempre foi abrigo, descoberta e transformação.

“Eu sempre quis ter um perfil que conversasse com outros leitores, que falasse de literatura, cinema e outros assuntos relacionados. Sou leitora desde que me entendo por gente. Lembro que minha professora da primeira série sempre falava à minha mãe o quanto eu gostava de ler. Havia uma estante com vários livros na sala e muitas vezes eu deixava de ir ao recreio para ficar lendo os textos dos livros de Português. A leitura foi o que me salvou de tantas coisas. Desde a infância, foi nos livros que busquei refúgio para muitas situações e foi o que me impulsionou a buscar crescimento profissional. Ler e não ter com quem compartilhar as impressões de leitura chega a ser frustrante. A gente gosta de comentar sobre o que leu, quer que mais pessoas leiam o que nós lemos. Então eu queria ter esse espaço para promover esse diálogo contínuo com outros leitores”, emociona-se Mariane que, foi minha aluna há uns sete anos em um curso de extensão para estudantes de jornalismo e eu lembro muito que, à época, eu já a chamava Poetinha.

Hoje, além das resenhas, o perfil mantém um quadro chamado As principais notícias do mundo literário, reunindo informações sobre eventos, lançamentos e iniciativas culturais locais, nacionais e internacionais. Seu trabalho mostra algo que todo leitor entende muito bem: ler é maravilhoso, mas compartilhar leituras é ainda melhor.

E seguindo sua tradição de indicação literária, fica a sugestão de uma obra que Mariane considera essencial: Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Um clássico que continua atual e necessário, lembrando que a grande literatura, assim como as grandes conquistas esportivas, resiste ao tempo.

Blog do Eliomar

pra terminar:

O primeiro jogo do Brasil nesta Copa aconteceu em 13 de junho, Dia de Santo Antônio.

Confesso que não vi quase ninguém nas redes sociais falando do santo casamenteiro.

Coitado de Santo Antônio.

Pela primeira vez em muito tempo, parece que ele perdeu um pouco o espaço para outro amor nacional, a Copa do Mundo.

Que Deus nos perdoe e que o Santo não nos castigue!

Até o próximo Cafezim.

LANÇAMENTO DE LIVRO

A Fundação Waldemar Alcântara promove, às 18h30, o lançamento do livro Ceará em 40 anos: Cultura e memória, organizado por Dora Freitas e Sílvia Furtado. A obra reúne 44 depoimentos de artistas, pesquisadores, gestores, produtores culturais e agentes que ajudaram a construir a trajetória da cultura cearense ao longo das últimas quatro décadas, tomando como ponto de partida o ano de 1983, quando a instituição foi criada.

O livro também presta tributo a personagens que já não podem ser ouvidos diretamente, como Violeta Arraes, Gilmar de Carvalho, Olga Paiva, Oswald Barroso e Zé Tarcísio, reconhecidos como vozes que seguem presentes nas ideias, nas obras e nos caminhos que abriram.

Mais do que uma publicação comemorativa, o livro propõe um exercício coletivo de memória, reunindo vozes de diferentes gerações e áreas da produção cultural. Entre lembranças, reflexões e registros históricos, a obra presta homenagem a personalidades que marcaram a vida cultural do Estado e reafirma a importância de preservar histórias que ajudam a compreender quem somos. O lançamento acontece na sede da Fundação Waldemar Alcântara e é aberto ao público.

Blog do Eliomar

Lançamento do livro Ceará em 40 anos: Cultura e memória

Data: 26 de junho de 2026, às 18h30

Local: Fundação Waldemar Alcântara

Vendas do livro no local

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