“A luta das mulheres no Brasil pela construção de igualdade” – Por Marta Pinheiro

Marta Pinheiro, poeta e produtora cultural. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “A luta das mulheres no Brasil pela construção de igualdade”, eis texto de Marta Pinheiro, escritora, poeta, produtora cultural, curadora literária, parecerista em editais de arte e cultura, especialista em Gestão Cultural e curadora na Biblioteca Pública Estadual do Ceará. “A exclusão das mulheres em tantas esferas — no esporte, na literatura, na política — escancara uma longa história de injustiças, silenciamentos e violências”, expõe a articulista.

Confira:

Esses dias, eu estava lendo uma matéria sobre a história da Copa do Mundo, um dos maiores eventos esportivos do planeta. Criada em 1930, a competição masculina tem 96 anos e nasceu por iniciativa de Jules Rimet, francês e ex-presidente da FIFA. Desde então, foi realizada de forma praticamente ininterrupta, com exceção dos anos marcados pela Segunda Guerra Mundial.

Mas vocês sabem por quantos anos as jogadoras de futebol precisaram esperar até que a Copa do Mundo Feminina fosse criada?

Por mais de 60 anos, mulheres guardaram esse sonho até finalmente poderem entrar em campo e disputar, pela primeira vez, uma Copa do Mundo, em 1991. Até então, eram apenas plateia nas arquibancadas — quando sua presença era permitida.

Hoje assisti a um vídeo da jornalista Míriam Leitão, que inclusive repostei, em que ela fala sobre a entrada das mulheres na Academia Brasileira de Letras. Durante quase 80 anos, mulheres quiseram ocupar aquele espaço, mas o próprio regimento da Academia proibia a eleição de mulheres. E, desde então, apenas 13 mulheres ocuparam cadeiras na instituição literária mais importante do Brasil.

A ABL, criada em 1897 por nomes como Machado de Assis, Olavo Bilac e Rui Barbosa, possui 40 cadeiras ocupadas por membros efetivos. Um detalhe que também merece reflexão: pelo menos 25 desses membros precisam residir no Rio de Janeiro, algo que, de certa forma, privilegia uma região específica do país. Mas esse é um debate para outro post.

A primeira mulher eleita para a ABL foi Rachel de Queiroz, em 1977.

E há uma ironia dolorosa nessa história: a escritora abolicionista Júlia Lopes de Almeida ajudou a pensar a ABL, mas era impedida de participar das reuniões entre os “imortais”.

Júlia realizou inúmeras palestras ao longo da vida para conscientizar mulheres sobre seus processos de emancipação diante de uma sociedade profundamente misógina.

Na política, em 24 de fevereiro de 1932, o Brasil deu um passo histórico ao garantir às mulheres o direito de votar e serem votadas. A conquista foi oficializada por meio do Decreto nº 21.076, que instituiu o Código Eleitoral e foi assinado por Getúlio Vargas.

Mas essa vitória não surgiu do nada. Ela foi resultado da luta de mulheres que, desde o final do século XIX, reivindicavam participação política em um cenário dominado exclusivamente por homens.

Celina Guimarães Viana entrou para a história como a primeira mulher a votar oficialmente no Brasil, ao se alistar em 1927, no Rio Grande do Norte, após uma mudança na legislação estadual que eliminou a distinção de sexo no direito ao voto.

Pouco depois, Alzira Soriano tornou-se a primeira mulher eleita prefeita da América Latina, ao vencer as eleições municipais de Lajes, em 1928 — antes mesmo da garantia nacional do voto feminino. Sua candidatura foi viabilizada por uma legislação estadual pioneira e fortalecida por lideranças como Bertha Lutz.

Três campos distintos. A mesma lógica de exclusão.

Às mulheres, nunca faltou capacidade. Faltou acesso. Faltou direito. Faltou uma sociedade disposta a reconhecê-las como sujeitos plenos de poder.

A exclusão das mulheres em tantas esferas — no esporte, na literatura, na política — escancara uma longa história de injustiças, silenciamentos e violências.

Fala de misoginia. Fala de machismo. Fala de patriarcado. Fala de estruturas construídas para limitar vozes, corpos e sonhos femininos.
Ainda hoje, o protagonismo das mulheres não é plenamente dado — ele precisa ser reivindicado, ocupado e defendido diariamente.

A luta das mulheres não pertence apenas ao passado.

Ela continua.

Todos os dias.

Marta Pinheiro
Escritora, poeta, produtora cultural, curadora literária, parecerista em editais de arte e cultura, especialista em Gestão Cultural e curadora na Biblioteca Pública Estadual do Ceará.

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