“Misantropia lembra problema de visão embaçada” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“O danado do celular se esgoelando em cima da pia do móvel do banheiro, vibrando e pisando mais que vaga-lume. O que teria acontecido? Alguém da família morreu? Quem poderia ligar a essa hora, ainda mais depois de uma noitada de churrasco e cervejas devido ao jogo do Brasil pela Copa do Mundo? Misantropia!”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

1h30 da manhã. O barulho desesperado do alarme do celular ainda toca em meu cérebro. Uma zoada macabra. Tateio no escuro em busca do aparelho, mexo aqui, embaixo do travesseiro, no criado-mudo, na gaveta. Nada, nada. E o som continua. Levanto e vou em busca daquela música desafinada como naquela fábula dos ratinhos atrás da flauta.

Até que encontro o danado do celular se esgoelando em cima da pia do móvel do banheiro, vibrando e pisando mais que vaga-lume. O que teria acontecido? Alguém da família morreu? Quem poderia ligar a essa hora, ainda mais depois de uma noitada de churrasco e cervejas devido ao jogo do Brasil pela Copa do Mundo?

Misantropia!

A palavra veio como um xingamento, um palavrão, um autêntico fidumaégua. Só faltou a vaia cearense para completar a cara de otário que fiquei ao ler o aviso, silenciar o alarme e me olhar no espelho. Fui no automático e murmurei, baixinho:

– ai dentu!

Mas o que seria misantropia? Àquela hora da madrugada e no estado em que estava, com os neurônios ainda se espreguiçando e o espírito ainda tentando voltar ao corpo, não dava para pensar em muita coisa. Fui até a janela ver se era algum ataque aéreo norte-americano, ou uma invasão alienígena, um furacão. Sei lá.

Tudo calmo no céu. Mas o aviso vinha da Defesa Civil, devia ser algo sério. Em outras palavras na minha cabeça o aviso ecoava como “rápido, todos ao bunker! ”. Que bunker? Nem estacionamento subsolo tem aqui pela redondeza. No máximo, o túnel da avenida Humberto Monte.

Misantropia. Convenhamos, a palavra é raramente usada, é pouco conhecida. No meu HD cerebral não há registro, quer dizer, não havia. Conhecia o oposto dela – filantropia – mas misantropia não. Prazer! Ou melhor, desprazer. Não só pela definição da palavra – aversão, desconfiança ou desprezo pela humanidade – mas pelo mau uso dela, em plena madrugada em um pós-jogo de Copa.

Fico pensando o que faz um sujeito invadir um sistema público, ter um trabalho danado para tentar causar pânico em todos e na hora h, usar uma expressão que ninguém nem sabe o que significa. É como driblar toda o time adversário e na entrada da pequena área chutar sobre o travessão. Se queria causar terror, medo ou mesmo qualquer tipo de reflexão, virou motivo de piada.

Ainda bem que hacker brasileiro é outro nível. Já imaginou se a mensagem enviada aos celulares dos brasileiros fosse diferente, tipo “tsunami chegando”, “Perigo de terremoto” ou “Poupança congelada”. As reações seriam outras. Mas, misantropia, não fez nem eu perder o sono.

Vou é dormir agora com celular desligado!

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

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