Com o título “TERRABRAS: O Brasil Precisa de uma Petrobras para as Terras Raras?”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “O Brasil tem genialidade para criar. Tem dificuldade em sustentar e dar “sustância” às suas políticas públicas que dão certo. Tá na hora de vestir as calças”, expõe o articulista.
(Ao Prof. Wendell Rodrigues, que faz da pesquisa um ato de soberania)
Confira:
*1. O Que São as Terras Raras e Por Que o Mundo Todo Quer*
Abrimos o celular, conversamos com sistemas de Inteligência Artificial e raramente pensamos nos elementos químicos que tornam tudo isso possível. As terras raras, 17 minerais tão estranhos quanto o “Homem da Meia-Noite” no carnaval de Olinda (neodímio, disprósio, térbio etc.), tornaram-se a matéria-prima invisível da economia digital. A transição energética e a revolução tecnológica são, em grande medida, uma corrida por esses caras da tabela periódica.
O Brasil ocupa posição singular nesta fórmula 1: um patrimônio capaz de influenciar cadeias globais de tecnologia, energia e defesa. Se o petróleo foi o combustível da economia industrial, as terras raras são o substrato da economia informacional do meu amigo Zé Carlos da UFPE. Mas a história já mostrou, várias vezes, que possuir recursos não é o mesmo que possuir poder. Que o digam os datacenters de IA das big techs, roedores insaciáveis de energia com passaporte brasileiro.
*2. O Tabuleiro Geopolítico e o Brasil Como Peão*
A guerra pelas terras raras é, em essência, extensão da guerra tecnológica entre Estados Unidos e China, não apenas por jazidas, mas por cadeias produtivas, patentes e poder geopolítico. O Brasil aparece nesse tabuleiro não como protagonista, mas como território de interesse, útil pra essa dupla encher os calhambeques deles. Sobra pro Brasil o papel mais cafona e menos lucrativo da cadeia: fornecedor de matéria-prima bruta.
Caso emblemático é a aquisição da Serra Verde Mineração pela americana USA Rare Earth: empresa estratégica em solo brasileiro (tá na Constituição que o minério é nosso), comprada por capital estrangeiro, para abastecer o mercado estrangeiro. É o ciclo do pau-brasil, do ouro, do café, da soja, repetindo-se com elementos do século XXI. A diferença é que, desta vez, o que está sendo extraído não alimenta apenas economias, mas as infraestruturas de poder do capitalismo digital.
Sem soberania sobre o processamento de minério, dados e do escambau, nós “tamo é pebado”: bucha de canhão das big techs, desfilando de potência econômica enquanto amarga um IDH (84º) … que só ganha do Haiti (158º) de 3×0.
*3. Soberania em Dois Espelhos: Terras Raras e Datacenters de IA*
À primeira vista, terras raras e datacenters parecem assuntos distintos. Não são!
Há uma simetria reveladora entre estes dois debates: a instalação de data centers de IA das big techs no Brasil e a extração de terras raras por empresas estrangeiras. Em ambos os casos, o Brasil concede isenções fiscais, oferece o que tem de mais valioso (território, energia barata, recursos naturais) e recebe em troca pouca contrapartida, além de empregos de médio escalão e nenhum acesso real à tecnologia que esses investimentos geram.
Vale lembrar que os servidores que processam dados de milhões de brasileiros (SUS, PIX e por aí vai) pertencem a empresas estrangeiras: 60% deles ficam no estado da Virgínia, EUA (Folha, 13/06/26). O minério que sai do nosso subsolo segue roteiro similar: volta, refinado por outros, como produto importado caro. A soberania sobre o recurso natural não se converte em soberania tecnológica ou econômica.
O pressuposto é o mesmo: um país que não domina nem os dados nem os minerais que possui não controla o próprio futuro. São faces diferentes da mesma vulnerabilidade soberana.
*4. O Brasil Já Soube Fazer Diferente … E Depois Esqueceu*
A Petrobras, criada em 1953 sob o grito “O petróleo é nosso”, transformou o país que deixou de ser importador dependente em potência petrolífera. A Embraer tornou o Brasil o terceiro maior fabricante de aeronaves do planeta. Ambas nasceram da decisão consciente de que certos setores são demais para deixar a mão invisível do mercado bolinar.
Mas essa cultura foi erodida. O lobby das montadoras destruiu a malha ferroviária brasileira, privilegiando rodovias sobre transporte coletivo. O carro do Gurgel foi sufocado pela concorrência predatória das multinacionais. Hoje esse lobby está mais sofisticado e mais perigoso, vestido de big tech, nos colonizando em silêncio. Ou você não paga mensalmente mais de “200 mireis” às plataformas deles?
O Brasil tem genialidade para criar. Tem dificuldade em sustentar e dar “sustância” às suas políticas públicas que dão certo. Tá na hora de vestir as calças.
*5. O Silêncio da Inteligência Nacional*
Talvez o aspecto mais preocupante de toda essa discussão seja a baixa participação da inteligência nacional nos grandes debates estratégicos do país.
Pesquisadores que estudam terras raras, semicondutores e IA publicam em periódicos internacionais, mas raramente se sentam às mesas onde se definem concessões, marcos regulatórios, políticas industriais ou estratégias nacionais de desenvolvimento.
A inteligência que poderia proteger o país de decisões equivocadas fica confinada aos laboratórios, aos congressos acadêmicos e aos artigos científicos, sem ponte efetiva para os espaços de poder.
Talvez a maior riqueza desperdiçada pelo Brasil não esteja no subsolo, mas nessa incapacidade de converter ciência e tecnologia em inteligência estratégica de Estado.
*6. O “Povo Calado” e a Corrupção Conhecida*
As big techs e o capitalismo extrativista global sabem que temas estratégicos como minerais, dados e infraestrutura digital raramente mobilizam praças: não têm rosto, não têm urgência visível, são decididos longe da pressão democrática.
Esse “povo calado” não é passividade ou ignorância: é o resultado de décadas de distância entre o cidadão e a decisão pública de nossos representantes na casa de Niemeyer.
Some-se a reputação, fundada em fatos, de corrupção sistêmica: contratos sem transparência, licitações direcionadas. O investidor estrangeiro aprende rápido que no Brasil há sempre uma porta dos fundos.
O resultado é a combinação perfeita para a extração de valor: população não mobilizada, elite permeável, inteligência desconectada, Estado sem projeto.
No século XXI, a dependência não chega por meio de exércitos, mas de contratos, plataformas e algoritmos. E prospera onde a sociedade está distante, as instituições são frágeis e a soberania é tratada como assunto secundário.
*7. “O Brasil Não Tem Tecnologia”. Mito ou Conveniência?*
Sempre que se propõe extrair e refinar terras raras em solo nacional, surge o mesmo argumento: o Brasil não teria a tecnologia necessária, hoje dominada pela China. Soa técnico, neutro, factual. E é exatamente por isso que merece desconfiança.
Como assim, cara-pálida? Esse não é o mesmo Brasil que desenvolveu, sozinho, a tecnologia do pré-sal, engenharia que poucos países dominam. O mesmo Brasil que fabrica aviões vendidos para mais de noventa países. Engenharia de precisão e metalurgia avançada não são novidade por aqui; o país já provou saber fazer isso em setores tão complexos quanto o refino de terras raras.
Então, de onde vem a narrativa de incapacidade?
Talvez não seja falta de tecnologia. Talvez seja falta de decisão, e no vácuo dessa decisão, floresce um discurso conveniente a quem já lucra com o modelo atual. Repetir que “o Brasil não tem tecnologia” sem nunca ter investido nela é profecia autocumprida: usa a ausência de investimento como prova da incapacidade que ela mesma cria.
A pergunta que fica não é se o Brasil pode desenvolver a tecnologia de extração e refino. A tecnologia do pré-sal e nossos aviões já responderam essa pergunta no campo dos fatos.
A pergunta é: por que, desta vez, decidimos que não vamos nem tentar?
Talvez seja hora de parar de perguntar e gritar de novo: “o minério é nosso.”
TERRABRAS no cangote deles!
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.