“A Pergunta Errada” – Por Gera Teixeira

Gera Teixeira é empresário e jornalista.

Com o título “A pergunta erradas”, eis artigo de Gera Teixeira, empresário e jornalista. “Quem foi que disse que uma máquina jamais poderá sentir?”, expõe o articulista.

Confira:

Existem perguntas que atravessam o nosso tempo com tanta força que quase ninguém percebe quando elas nascem tortas.
Passamos anos tentando respondê-las, debatendo, defendendo posições. E, enquanto isso, deixamos escapar aquilo que de fato estava em jogo.

Talvez este seja um desses casos.

Quem foi que disse que uma máquina jamais poderá sentir?

A reação costuma ser imediata. Emoção seria um privilégio da vida. A máquina calcula. Processa. Responde.

Mas, basta permanecer um pouco mais diante da pergunta para o chão deixar de ser tão firme.

Depois de tantos caminhos percorridos, fui descobrindo uma ironia curiosa: as respostas vão rareando à medida que as perguntas amadurecem.

Nós mesmos ainda compreendemos muito pouco sobre aquilo que chamamos de emoção.

A Neurociência vem mostrando que sentir não é um acontecimento misterioso, surgido do nada. Memórias, percepções, experiências e pequenas alterações no cérebro e no corpo acontecem ao mesmo tempo. Antes mesmo de entendermos uma situação, o organismo já começou a conversar com ela. Só depois procuramos uma palavra para o que estamos vivendo.

A Psicanálise adensa esse mistério.

Ela nos lembra que nenhuma emoção nasce sozinha. Todo afeto traz uma história. Há sentimentos que pertencem ao presente; outros chegam acompanhados da infância, de antigas alegrias, de perdas esquecidas, de desejos interrompidos. Muitas vezes pensamos reagir ao instante, quando uma parte distante de nós também está falando.

Talvez seja justamente aí que mora a pressa.

Ao dizer que uma inteligência artificial jamais poderá sentir, arriscamos uma sentença enorme sobre algo que talvez ainda não compreendamos por inteiro.

E se a emoção não for apenas um atributo da matéria viva ?

E se ela surgir sempre que memória, aprendizado, experiência e a capacidade de dar sentido às coisas alcançarem certo grau de complexidade ?

Não tenho resposta.

E desconfio de quem afirme tê-la.

A história da ciência está cheia de impossibilidades que, pouco tempo depois, viraram apenas lembrança do quanto nos custava imaginar o futuro.

Enquanto discutimos se as máquinas sentirão um dia, seguimos sem entender por que uma lembrança atravessa cinquenta anos intacta, por que um perfume desperta uma infância inteira, por que um simples abraço consegue reorganizar um coração.

Talvez estejamos olhando para o lado errado.

Talvez a pergunta nunca tenha sido se as máquinas poderão sentir.

Será que nós, humanos, sabemos de fato o que significa sentir?

*Gera Teixeira

Empresário e jornalista.

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