“Copa do Mundo em tempos políticos” – Por Ernesto Antunes

Ernesto Antunes é consultor de empresas e administrador. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “Copa do Mundo em tempos políticos”, eis artigo de Ernesto Antunes, escritor e consultor empresarial. “(…) não podemos deixar que fatores extracampo prejudiquem a nossa ainda cambaleante Seleção Brasileira, pois, como dizia o ex- jogador Sócrates: “Ganhar ou perder, mas sempre com Democracia”, expõe o articulista.

Confira:

É impressionante como, nesse período de Copa do Mundo de Futebol, os ânimos que deveriam estar focados apenas no futebol, têm sido desviados para detalhes meramente políticos, que vão muito além de partidas, dentro das quatro linhas do campo.

Todo esse questionamento começou com a convocação do treinador Carlo Ancelotti, que resolveu convocar o jogador Neymar Júnior, declarado eleitor dos bolsonaristas, causando contentamento para alguns e descontentamento de outros cidadãos mais polarizados e conectados com ideologias políticas. Entendo que o argumento principal deveria ser as questões físicas e atléticas do referido jogador e não preferências políticas dele.

Com o início dos jogos, essa tendência política não mudou, pois, com a presença nos estádios norte-americanos das diversas personalidades políticas, como o deputado federal Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro – e até o senador e presidenciável pelo PL, Flávio Bolsonaro, foram vistos assistindo e torcendo nos jogos da nossa seleção, vieram questionamentos.

O que poderia ser visto como um patriotismo dessas pessoas, gerou nas mídias sociais um festival de elogios e ataques sem precedentes a esses cidadãos. E mesmo se sabendo que são cidadãos que têm o direito de ir e vir, pois são funcionários públicos federais que ocupam cargos no legislativo.

Essa polarização doentia continuou e também foi vista nas televisões que transmitiam os jogos, como um torcedor brasileiro vestido com a amarelinha e com frase nas costas da camisa: ”Lula Ladrão”. Deveriam estar estampadas nela o famoso e eternizado número 10 do Pelé ou o 9 do Ronaldo Fenômeno.

Também foi divulgada, exaustivamente, a fala do presidente Lula comentando que Neymar não passava de um jogador home-office, criticando o fato dele não ir nem no banco de reservas nos primeiros jogos. Todo esse fogo jogado por políticos, nessa grande fogueira política já existente, prejudica mais do que ajuda nesse tenebroso cenário pré-eleitoral que vivemos.

Isso tudo não cessou.O fato do jogador Gabriel Martineli fazer o gol decisivo contra o Japão, usando a camisa com número 22, já foi motivo de celebração maior por parte dos direitistas que votam no PL de Flávio Bolsonaro. Nas mídias e nas redes sociais surgiram discussões acaloradas e desnecessárias sobre essa numerologia.

Parece que o momento que vivemos é o de questionar. Até as emissoras que transmitem os jogos da Copa, viraram assuntos polarizados. Afinal, devemos assistir aos jogos do Brasil na Globo, na CazéTV ou no SBT do narrador Galvão Bueno?

A partir de tudo isso, lembrei-me do período que antecedeu a Copa do Mundo de 1970, no México, quando o então presidente da República Emílio Médice, quis obrigar o treinador João Saldanha a convocar o folclórico Dada Maravilha para o certame. Foi quando o falecido treinador disse, de forma direta: “Você escolhe os seus ministros e eu escolho os jogadores para a Seleção”.

No final de tudo, Saldanha foi demitido e Dario foi convocado para a Copa do México.

Portanto, não podemos deixar que fatores extracampo prejudiquem a nossa ainda cambaleante Seleção Brasileira, pois, como dizia o ex- jogador Sócrates: “Ganhar ou perder, mas sempre com Democracia”.

*Ernesto Antunes

Escritor e Consultor Empresarial.

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