“O presente como reflexo do passado” – Por Djalma Pinto

Djalma Pinto é advogado e especialista em Direito Eleitoral. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “O presente como reflexo do passado”, eis artigo de Djalma Pinto, advogado, jurista e escritor.”Muitos políticos estudaram nas melhores escolas e faculdades dos seus estados, mas não sabem conviver com o poder, atuando sempre com desvio de finalidade ou mesmo desviando dinheiro público. A família e a escola falharam, assim, na sua educação para cidadania.”, expõe o articulista 

Confira:

A explosão da violência, da corrupção e de outros males, que atualmente incomodam a sociedade, decorrem da ausência, no passado, de políticas públicas que valorizassem a formação ética dos alunos para que se tornassem cidadãos bons e justos. Aristóteles percebeu isso:
“Desde a infância, o agradável e o doloroso cresceram com cada um de nós, e por isso é difícil livrar-se desses sentimentos, totalmente impregnados em nossa vida”.

Um homem de 60 anos, semianalfabeto, mas inteligente, que convive com pessoas de todos os níveis sociais e sabe distinguir os honestos dos desonestos, explicou-me por que nunca se envolveu com a criminalidade, nem com “coisa errada”. Morava com sua grande família, no
interior de um distrito no Ceará, sem escola e sem contato com a civilização. Todas as noites, ele e seus nove primos, iam à casa do avô que, sentado em uma cadeira de balanço, contava histórias às crianças deitadas ou sentadas no chão à sua volta. Antes de terminar, fazia a advertência: “Nunca, mas nunca mesmo, peguem no alheio. Se um de vocês pegar, a polícia vai prender, pelar sua cabeça e passar piche. Todo mundo vai saber que você não respeita o alheio”.

O efeito dessa advertência foi positivo: nenhum dos netos, apesar das dificuldades e da falta de escolaridade, envolveu-se com criminalidade. A pedagogia simples do ancião transmitiu valores essenciais para que os netos não envergonhassem o nome da família nem ameaçassem o patrimônio das pessoas. Embora não pudesse transmitir saberes acadêmicos, ele transmitiu valores eficazes.

Muitos políticos estudaram nas melhores escolas e faculdades dos seus estados, mas não sabem conviver com o poder, atuando sempre com desvio de finalidade ou mesmo desviando dinheiro público. A família e a escola falharam, assim, na sua educação para cidadania. O resultado é a pobreza angustiante de um País rico, mas com muita gente pedindo esmola nas esquinas e sem andar com segurança nas ruas.

Por sua vez, o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, fundamentou a fórmula mais eficiente para a conter a brutalidade, que nos dias de hoje se expressa no poder das facções, que violam o direito à vida e o direito de propriedade das pessoas. Assegurou ele: O mandamento “Ama
teu próximo como a ti mesmo” é a mais forte defesa contra a agressividade humana.

Por isso, John Taylor Gatto constatou: “Não existe uma maneira certa de se tornar educado; existem tantas maneiras quanto impressões digitais.” Mulheres humildes, que evitaram que seus filhos sucumbissem às drogas, no ambiente de sua moradia, destacam o cuidado com as
companhias suspeitas e o fato de nunca dormirem antes que os filhos menores estivessem todos em casa. Cabe, como prevê a Constituição, à família e à escola, com a colaboração da sociedade, garantir educação com transmissão de valores para que, no futuro, os brasileiros não tenham tanto a reclamar daqueles que, com ou sem poder político, nada fizeram para tornar a vida melhor no presente.

*Djalma Pinto

Advogado, Mestre em Ciência Política e autor de diversos livros, entre os quais “Ética na Política”, “Distorções do Poder”, “Educação para a Cidadania” e “Cidade da Juventude”.

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