“Misoginia, traição conjugal e sexo com astronautas viram tema de campanha” – Por Luiz Henrique Campos

Michelle e Flávio em constantes choques. Fotos: Reproduções

Com o título “Misoginia, traição conjugal e sexo com astronautas viram tema de campanha”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Vemos o rebaixamento do debate público por parte de um espectro político que empobrece a democracia e distancia o eleitor das discussões que realmente impactam sua vida. A ironia é inevitável. Boa parte desse campo político construiu sua identidade em torno da defesa da família como um de seus principais valores. Justamente por isso, as fissuras familiares ganham enorme repercussão e produzem um desgaste proporcional ao discurso que sempre procurou sustentar”, expõe o colunista.

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Era para estarmos em um daqueles momentos tradicionalmente mornos da política brasileira. Entre a pré-campanha eleitoral e a Copa do Mundo, seria natural imaginar que o debate público estivesse concentrado em estratégias, programas de governo e na construção das narrativas que disputarão o voto do eleitor nos próximos meses, na perspectiva de aquecimento para a campanha que se iniciará em breve. Mas a realidade insiste em contrariar a lógica.

Depois de acompanhar muitas campanhas eleitorais ao longo da vida, poucas vezes vi candidato demonstrar uma capacidade tão extraordinária de produzir agenda negativa contra si próprio. E o mais curioso é que se trata justamente de nome da oposição, condição que, em tese, lhe ofereceria vasto repertório de críticas ao governo de plantão e inúmeras oportunidades para pautar o debate nacional.

O que se vê, entretanto, é exatamente o inverso. Em vez de ocupar o noticiário com propostas, a sucessão de desgastes nasce dentro da própria trincheira política. O mais recente embaraço envolvendo divergências entre Flávio Bolsonaro e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, apenas reforça impressão que vem se consolidando de que os maiores obstáculos a sua intenção de chegar à Presidência da República, são produzidos pelos próprios aliados.

Não se trata de ofensiva bem-sucedida dos adversários, como se tem visto. Estes até, têm ficado à margem. Os percalços têm origem interna, em uma impressionante capacidade de autofagia política, em que disputas pessoais acabam se sobrepondo ao objetivo maior de construir candidatura competitiva. Há aspecto ainda mais preocupante. Os temas que dominam a discussão estão muito longe das grandes questões nacionais. Em vez de economia, segurança pública, educação, saúde ou inserção internacional do Brasil, ganham espaço acusações, insinuações, misoginia, humilhações verbais, agressões pessoais e até especulações sobre relações familiares e conjugais.

Vemos o rebaixamento do debate público por parte de um espectro político que empobrece a democracia e distancia o eleitor das discussões que realmente impactam sua vida. A ironia é inevitável. Boa parte desse campo político construiu sua identidade em torno da defesa da família como um de seus principais valores. Justamente por isso, as fissuras familiares ganham enorme repercussão e produzem um desgaste proporcional ao discurso que sempre procurou sustentar.

O calendário eleitoral ainda reserva cerca de três meses até o primeiro turno. Se a campanha sequer começou oficialmente e os principais fatos políticos já decorrem de conflitos internos, a pergunta que fica é inevitável. Quando chegar o confronto direto com os adversários, haverá espaço para discutir projetos de país ou continuaremos assistindo a enredo dominado por crises fabricadas dentro da própria casa? E o mais grave. Se em campanha está sendo assim, como seria um possível mandato de quatro anos?

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do,Blogdoeliomar.

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