Com o título “O diploma perdeu o seu valor?”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais. “(…) que tipo de sociedade desejamos construir? Uma sociedade que forma apenas mão de obra para o mercado ou uma sociedade que forma cidadãos capazes de pensar, inovar, liderar e transformar a realidade?”, expõe o articulista.
Confira:
Durante décadas, uma das maiores aspirações das famílias brasileiras era ver um filho ingressar na universidade. Não se tratava apenas da conquista de um diploma. Era a promessa de uma vida melhor, de estabilidade financeira, de reconhecimento social e, sobretudo, da possibilidade de romper o ciclo das desigualdades. Para milhões de brasileiros, o ensino superior representava o mais importante instrumento de mobilidade social.
O Brasil mudou. E mudou para melhor.
As universidades deixaram de ser espaços reservados a uma pequena elite. A expansão do ensino superior, impulsionada pelas universidades federais, pelo crescimento das instituições privadas, pela educação a distância e pelas políticas públicas de inclusão, permitiu que um número jamais visto de brasileiros chegasse às salas de aula universitárias. Trata-se de uma conquista histórica que deve ser celebrada.
Entretanto, toda grande transformação produz novos desafios.
Curiosamente, justamente quando o diploma universitário se tornou mais acessível, começou a surgir entre muitos jovens — e até entre profissionais já formados — uma dúvida que, há trinta anos, pareceria impensável: ainda vale a pena fazer uma faculdade?
Essa pergunta não decorre de um desprezo pelo conhecimento. Ela nasce da observação da realidade.
Multiplicam-se histórias de pessoas que alcançam sucesso financeiro sem formação universitária. Empreendedores digitais, desenvolvedores de tecnologia, criadores de conteúdo, investidores e profissionais da economia criativa ocupam diariamente espaço na mídia e nas redes sociais, alimentando a percepção de que a universidade deixou de ser condição indispensável para prosperar.
Ao mesmo tempo, muitos graduados enfrentam salários modestos, dificuldades de inserção no mercado e frustrações decorrentes de uma formação que, por vezes, não dialoga suficientemente com as necessidades da sociedade e das novas dinâmicas econômicas.
É natural, portanto, que se estabeleça uma comparação.
Se antes o diploma era visto como garantia de ascensão social, hoje ele parece, para alguns, apenas mais um certificado em meio a tantos outros.
Mas essa conclusão exige cautela.
O problema talvez não seja a perda de valor da educação superior. O que perdeu valor foi a crença de que o diploma, por si só, bastaria para assegurar uma carreira de sucesso.
O mercado transformou-se profundamente. O conhecimento envelhece em velocidade inédita. Novas profissões surgem todos os anos, enquanto outras desaparecem. As organizações passaram a valorizar menos os títulos isoladamente e muito mais competências como criatividade, capacidade de resolver problemas, domínio tecnológico, inteligência emocional, liderança, comunicação e disposição para aprender continuamente.
Nesse novo cenário, a universidade já não pode ser encarada como ponto de chegada. Ela deve ser compreendida como ponto de partida para uma formação permanente.
Há, contudo, uma dimensão dessa discussão que costuma ser esquecida.
Reduzir a universidade à sua utilidade econômica é empobrecer o próprio conceito de educação. O ensino superior não existe apenas para formar profissionais aptos a gerar renda. Sua missão é muito mais ampla: formar cidadãos capazes de compreender a complexidade do mundo, fortalecer a democracia, produzir ciência, promover inovação, cultivar valores éticos e construir soluções para os grandes desafios da humanidade.
Uma sociedade que mede o valor da educação apenas pelo salário de seus profissionais corre o risco de transformar o conhecimento em mercadoria e as universidades em meros centros de treinamento para o mercado.
Talvez essa seja a maior armadilha do nosso tempo.
Não há dúvida de que o ensino superior precisa se reinventar. Currículos mais flexíveis, maior aproximação com o setor produtivo, incentivo ao empreendedorismo, incorporação das novas tecnologias e formação interdisciplinar são caminhos praticamente inevitáveis.
Mas seria um grave equívoco concluir que a universidade se tornou dispensável. As evidências continuam demonstrando que, em média, quem possui formação superior alcança melhores oportunidades profissionais, maior renda ao longo da vida e maior capacidade de adaptação às mudanças econômicas e tecnológicas.
Talvez o retorno financeiro não seja tão automático quanto foi para as gerações anteriores. Ainda assim, ele permanece significativo quando analisado em perspectiva.
Mais importante, porém, é reconhecer que nenhuma inteligência artificial, nenhuma plataforma digital e nenhuma inovação tecnológica substituem a capacidade humana de refletir criticamente, interpretar a realidade, produzir conhecimento, exercer o discernimento e tomar decisões éticas. Essas competências continuam sendo cultivadas, de maneira privilegiada, nas boas universidades.
Talvez o verdadeiro desafio não seja perguntar se o diploma perdeu o seu valor.
A pergunta que realmente importa é outra: que tipo de sociedade desejamos construir? Uma sociedade que forma apenas mão de obra para o mercado ou uma sociedade que forma cidadãos capazes de pensar, inovar, liderar e transformar a realidade?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro das universidades brasileiras, mas o próprio futuro do Brasil.
Porque um país pode, eventualmente, produzir riqueza sem investir seriamente em educação. O que jamais conseguirá produzir, de forma duradoura, é desenvolvimento, justiça, cidadania e civilização.
*Vanilo de Carvalho
Advogado e Mestre em Negócios Internacionais.