“Para quem estamos entregando as chaves do nosso futuro?” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira fará palesra de abertura da Caravana LF, em São Paulo.

Com o título “Para Quem Estamos Entregando as Chaves do Nosso Futuro?”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “Quando olharmos para o Brasil daqui a dez, vinte anos, poderemos dizer que fomos nós que guardamos as chaves do nosso futuro? Ou descobriremos, tarde demais, que nunca passamos de locatários da casa onde nos imaginávamos proprietários? Da casa que nossos avós levantaram e que nossos netos, se nada fizermos, vão conhecer pagando aluguel”, expõe o articulista.

(à Thais Batista, Presidenta da SBC)

Confira:

A pergunta não é retórica. É o título de um dos painéis do Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC), de 19 a 23 de julho de 2026, no aconchego da Serra Gaúcha, na deliciosa Gramado.

Tudo ali conspira para o conforto: uma cruviana daquelas, chocolate quente, fondue e boa conversa.

Tudo, menos a pergunta. Essa não “desce redondo”. Veio para tirar a computação brasileira da zona de conforto.

Porque há perguntas que pedem respostas. Outras exigem coragem para admitir a resposta que já existe … e fingimos não vê-la.

Este painel não é sobre algoritmos nem sobre Inteligência Artificial. É sobre poder, autonomia, soberania.

A pergunta pertence ao segundo grupo e deveria inquietar muito além dos corredores do CSBC. Deveria ecoar no Congresso Nacional, nos conselhos de empresas, nas universidades, nos quartéis, nos tribunais e, principalmente, nos gabinetes onde se desenha o futuro do país.

As chaves, convenhamos, já estão circulando. Nossos dados dormem em nuvens alheias. Nossa infraestrutura crítica roda sobre códigos que não escrevemos, sob regras que não aprovamos. Mesmo assim, seguimos clicando OK em pirueta com a desenvoltura de um estagiário no 1º dia.

Desconfio que a pergunta do painel do CSBC é uma das mais urgentes que o Brasil precisa responder … antes da “apocalíptica” singularidade. Porque entregar as chaves é fácil. Difícil é recuperá-las. Somos inquilinos digitais no nosso próprio território e ainda agradecemos ao senhorio pela pontualidade do boleto.

Neste 20/jul, terei o privilégio de discutir essa questão no CSBC ao lado de gente que entende do assunto: Fábio Kon (USP), Lisandro Granville (UFRGS/RNP) e Renata Mielli (CGI.br).

A história brasileira conhece esse enredo de “cor e salteado”. Do pau-brasil ao ouro, da borracha ao minério de ferro e, mais recentemente, das terras raras aos ímãs permanentes, seguimos especialistas em entregar matéria-prima e comprá-la de volta com valor agregado.

Mudam os produtos. Mudam os impérios. A lógica permanece teimosamente a mesma. Financiamos a prosperidade alheia enquanto debatemos, com notável elegância acadêmica, por que insistimos em permanecer pobres em tecnologia.

Quando percebemos o tamanho do negócio, a chave já mudou de mãos. E quem ficou com a fechadura passou a decidir quem entra, quem sai e quanto custa a entrada.

O século XXI parece ter levado uma rasteira de capoeira. A soberania não desapareceu. Mudou de endereço.

Hoje, parte crescente dela mora em lugares invisíveis. Mora nos algoritmos que escolhem o que vemos. Nos cabos submarinos por onde passa tudo, de “Conversas de Botequim” do Noel às decisões de Estado. Nos datacenters onde repousam nossos inocentes dados, submetidos a legislações que não aprovamos, tribunais que não elegemos e interesses que não são nossos.

Mas é nos modelos de Inteligência Artificial Generativa que a coisa dói no espinhaço, tipo patada de burro brabo.

Esses modelos, cada vez mais poderosos e menos transparentes, estão se tornando a infraestrutura cognitiva da economia informacional. Influenciam decisões econômicas, educacionais, jurídicas, militares e políticas. Respondem perguntas. Escrevem textos. Produzem imagens. Filtram informações. E, silenciosamente, moldam a forma como pensamos o mundo.

A pergunta deixa então de ser tecnológica. Passa a ser geopolítica. E é aqui que a porca torce o rabo:

Quem controla esses modelos controla muito mais do que computadores. Controla a infraestrutura do conhecimento. Controla parte da inteligência coletiva. E, aos poucos, passa a controlar também o ritmo com que outros países conseguem inovar, competir e decidir seus próprios destinos.

Nessa luta do rochedo contra o mar, o capitalismo escala sua própria versão de “O Gordo e o Magro” (Laurel e Hardy). Em bom cearensês, a dupla é formada pelo Sabido e pelo Abestado. Numa versão politicamente correta, chamemos de Protagonista e Colonizado… como preferirem. Na comédia, a torta na cara acerta sempre o mesmo rosto.

O Abestado, ou Colonizado, faz exatamente o que sempre fez: fornece a matéria-prima. Assina Termos de Uso sem ler e ainda chama isso de modernidade.

Trata-se de um apartheid geopolítico digital, e as regras do jogo são simples:

Quem domina essa cadeia vende serviços, exporta inteligência.
Quem não domina compra assinaturas, exporta dados.

Quem domina estabelece as regras.

Quem não domina clica em “Aceito”.

Neste oligopólio cibernético, poucos concentram a capacidade de criar, treinar, hospedar e governar as tecnologias que o resto do mundo apenas consome … e paga muito caro, alimentando a dependência alucinatória de um adicto tecnológico a caminho do quântico.

Enquanto damos milho aos pombos, a Guerra Fria segue firme… com outros trajes, ou ultrajes.

Saiu dos silos nucleares e entrou nos datacenters de IA. Os tanques perderam protagonismo para as GPUs. E as ogivas deram lugar às linhas de código.

A corrida espacial virou corrida computacional.

A pergunta da vez, que desce desembestada a ladeira digital, já não é quem possui os dados. Essa ficou pequena.

O povo quer saber: quem detém as chaves para abrir, interpretar, cruzar, monetizar e transformar esses dados em poder?

Na trilogia de artigos sobre terras raras, defendi um daqueles óbvios de rei nu: quase todo mundo enxerga, mas muitos preferem silenciar. A verdade costuma ser inconveniente aos interesses instalados. Possuir o minério não significa possuir valor. A riqueza nasce da transformação, do processamento, do refino. Nasce do valor agregado.

Estamos repetindo exatamente esse mesmo erro em tempos de economia Informacional da IA, com uma agravante. No caso do minério, pelo menos sabemos que estamos exportando. No caso dos dados, entregamos nossa energia sem “nota fiscal”.

A história costuma ser impiedosa com países que confundem abundância de recursos com capacidade de gerar riqueza, terceirizando os ativos estratégicos de sua época.

Por isso, soberania digital não começa na tecnologia. Começa muito antes. Começa na decisão política de um país sobre quais ativos estratégicos aceita compartilhar… e sobre quais chaves jamais deveria entregar.

Não estamos defendendo o isolamento tecnológico. Tampouco a fantasia de uma autossuficiência tropical.

Ciência nasceu para cooperar. Conhecimento nasceu para circular.

Mas cooperação não pode ser confundida com dependência permanente.

Nem colaboração com subordinação tecnológica

Vale lembrar a novela recente do PIX. Bastou o Brasil construir uma infraestrutura digital estratégica, gratuita e soberana para que ela virasse, do dia para a noite, problema de política externa alheia.

Este caso não foi um acidente. Foi um sintoma. Porque tecnologia estratégica nunca permanece apenas tecnologia. Quando ganha escala, vira economia. Quando se torna indispensável, vira geopolítica. E, quando altera relações de poder, passa a ser tratada como assunto de Estado.

É exatamente aqui que a comunidade brasileira de computação tem, talvez, o maior desafio (eu ia dizer responsabilidade, mas …) de sua história.

Não basta construir sistemas. Precisamos ajudar o país a compreender suas consequências.

Não basta publicar bons artigos. Precisamos disputar o futuro que eles descrevem.

Não basta formar cientistas. Precisamos disputar as políticas públicas que dirão o que eles vão pesquisar.

Afinal, a pergunta do painel no CSBC, no fundo, não é se a Inteligência Artificial transformará o país. Ela já chegou… tinindo, e com um apetite que a Revolução Industrial não conheceu: exponencial.

Também não é se utilizaremos plataformas das big techs. Já as utilizamos a rodo … e sem guardar o fio do novelo capaz de nos trazer de volta.

A verdadeira pergunta é outra.

Quando olharmos para o Brasil daqui a dez, vinte anos, poderemos dizer que fomos nós que guardamos as chaves do nosso futuro? Ou descobriremos, tarde demais, que nunca passamos de locatários da casa onde nos imaginávamos proprietários? Da casa que nossos avós levantaram e que nossos netos, se nada fizermos, vão conhecer pagando aluguel.

Porque um país que não domina as tecnologias que organizam sua economia, sua democracia e sua educação não perdeu apenas mercado.
Perdeu o direito de sonhar com o próprio futuro.

Soberania não é o direito de usar a tecnologia dos outros.

É a capacidade de escolher o próprio destino.

Nos vemos em Gramado.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

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