“A Copa que nos obrigou a olhar para nós mesmos” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “A Copa que nos obrigou a olhar para nós mesmos”, eis a coluna “Fora das4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “A verdade é que o futebol brasileiro já não ocupa o lugar de referência técnica que um dia teve. Hoje, está longe de ditar tendências, de formar os principais protagonistas ou de produzir o encantamento que fazia do Brasil o time que todos queriam assistir. Permanecemos competitivos, mas já não somos, há bastante tempo, os melhores do mundo”, expõe o colunista

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No próximo domingo, quando Argentina e Espanha entrarem em campo para decidir a Copa do Mundo, não estará em disputa apenas um troféu. Encerra-se também uma edição que ficará marcada como a maior da história em número de seleções, de jogos e de torcedores, mas, sobretudo, pela capacidade de produzir partidas antológicas, daquelas que justificam a paixão de bilhões de pessoas pelo futebol.

Foi uma Copa de confrontos épicos, de reviravoltas improváveis e de atuações memoráveis. O torneio mostrou que, mesmo em tempos de excessos tecnológicos e interesses comerciais cada vez mais presentes, o futebol continua sendo das poucas linguagens capazes de unir o planeta em torno da emoção. Mas a Copa também serviu como metáfora do nosso tempo.

Assistimos às sucessivas trapalhadas da FIFA na organização do evento, à politização de decisões que deveriam pertencer apenas ao esporte e, principalmente, ao ambiente contaminado por visão de mundo cada vez mais fechada, marcada por nacionalismo arrogante, incapaz de enxergar além do próprio umbigo — lógica que, em muitos momentos, lembrou os métodos trumpistas de compreender e menosprezar tudo aquilo que está fora dos interesses americanos.

Dentro de campo, porém, o futebol respondeu da melhor maneira possível. Novas escolas ganharam protagonismo, conceitos táticos se renovaram, jovens talentos surgiram para assumir o protagonismo das próximas décadas e velhos craques, talvez pela última vez, mostraram que o talento continua sendo o maior patrimônio do esporte. Para nós, brasileiros, entretanto, ficou constatação difícil de ser assimilada.

Continuamos donos da camisa mais respeitada da história e da galeria mais rica em títulos mundiais. Esse patrimônio pode demorar a ser apagado, porque o torneio só acontece a cada quatro anos. Mas viver apenas dele é exercício perigoso. A verdade é que o futebol brasileiro já não ocupa o lugar de referência técnica que um dia teve. Hoje, está longe de ditar tendências, de formar os principais protagonistas ou de produzir o encantamento que fazia do Brasil o time que todos queriam assistir. Permanecemos competitivos, mas já não somos, há bastante tempo, os melhores do mundo.

Talvez por isso nenhuma das partidas inesquecíveis desta Copa tenha sido protagonizada pela Seleção Brasileira. Nenhum dos grandes personagens do torneio vestiu a camisa amarela. E, pela primeira vez para muitos torcedores, as maiores emoções vieram justamente de outras seleções, que acabaram despertando admiração e encantamento muito maiores do que conseguimos provocar.

É uma realidade que machuca, mas que precisa ser reconhecida. O futebol, como a vida, não recompensa quem vive apenas das glórias do passado. Ele exige reinvenção, coragem e capacidade de aprender. Talvez esta tenha sido a principal lição da Copa do Mundo que termina no próximo domingo. Antes de voltar a sonhar em ser o melhor, o Brasil precisará voltar a merecer esse posto.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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